Recuando no tempo, a imprensa lagoense em 1904, dá-nos uma perspectiva de como pesavam, nas decisões municipais, o parecer vinculativo dos então “Quarenta Maiores Contribuintes Prediais do Concelho de Lagoa ”.  Ora vejamos:

|Jornal O Lagoense diz-nos na sua rúbrica – “Da Nossa Carteira” |

A Freguezia de Agua de Pau inquiriu à Câmara pedindo o desdobramento do partido em dois, com a obrigação de um dos médicos ali residir e exercer clinica. A câmara somente resolveu conceder um subsídio de 300$000 réis a um técnico, ouvida a opinião dos Srs. “Quarenta Maiores Contribuintes”. 

(In Jornal O Lagoense. Página 3. Número 5, Ano I (24 de Janeiro de 1904). Lagoa – Açores)

Opinião d´um Munícipe Lagoense

Bravo! Bravíssimo, sr. João Pedro Borges!… É assim que se raciocina, que se pensa, que se expõe e que se fala!… E creia-me que o apoio com a mesma modéstia, com o mesmo patriotismo, e com o mesmo interesse, convicção e entusiasmo com que o Sr. expôs o seu justo e sensato parecer perante esta Assembleia dos 40 maiores contribuintes prediais, eleitores deste concelho, que se reuniu no dia 13 do corrente na sala do nosso Senado para dar o seu parecer sobre a deliberação da Camara, estabelecendo um subsidio de 300$000 réis anuais a um medico que exercer a clinica em Agua de Pau, com residência ali.

Essa deliberação do nosso Município foi baseada n´uma representação que muitos signatários daquela localidade fizeram á Camara e n´uma proposta do Sr. vereador Arthur de Quental Tavares do Canto; mas a maioria da Assembleia reprovou-a; e a meu ver andou muito bem, porque depois que a Camara impõe ao medico, que for provido no partido municipal deste concelho, a obrigação de ir às segundas e quintas feiras a Agua de Pau, levando pelas consultas  2$000 reis. (pouco mais do transporte) não me parece que tenha lugar o subsidio para um médico ali.

E depois, quem pretenderá ir para ali exercer a clinica com um subsídio tão exíguo? Quem poderá também tirar partido? Só um pedante, como o disse e com muita precisão o sr. João Pedro Borges. Será pelo luxo de terem um médico n´aquella freguezia?

Reconsiderem, Srs. Vereadores, e vejam que vão sobrecarregar o Município com um encargo novo e pesado e sem utilidade alguma para aquele povoado, que ficaria incontestavelmente muito mais bem servido com o medico d´esta Vila nas condições em que resolveram pôr o lugar a concurso.

Trezentos mil réis, Srs. Vereadores, bem aplicados e administrados, como bem o tendes provado n´estes últimos dois anos da vossa gerência, dão para muito serviço de que este concelho está carecido.

Não se diga que não é um encargo novo porque se elemina o ordenado da parteira. Mas nesse lugar já estava porventura criado? Não. E porque anularam a deliberação sobre a criação do lugar de parteira? Seria para reverter o ordenado d´esta a favor do subsidio do médico de Agua de Pau? Então qual será destes melhoramentos, o mais útil?

Quem poderá ver a sangue frio a sua esposa, n´essa hora bastante crítica, a mais perigosa da sua vida, nas mãos d´uma curiosa e incompetente? Quantas vítimas de parto não temos tido?

Reconsiderem, Srs. Vereadores, reconsiderem…

Da nossa carteira

– Acha-se entre nós, de visita a sua Exma. família, o nosso amigo, Sr. José Soares de Medeiros, abastado proprietário em Agua de Pau. Parte para Lisboa no Paquete Funchal.            

(In Jornal O Lagoense. Página 2. Número 6, Ano I (31 de Janeiro de 1904). Lagoa – Açores)

Por: RoberTo MedeirOs
(Artigo publicado na edição impressa de março de 2017)