“Quem vê, quer ver….e, quem não sabe ler, tem de aprender”. Era este um dos lemas da professora Beatriz Augusta da Costa já em 1904, na sua escola.

Daremos conta hoje das dificuldades que passou o professorado no início do século XX neste concelho. Assim como o benemérito marquês Jácome Correia providenciou a construção dum edifício escolar na freguesia do Rosário, em Água de Pau a professora Beatriz Augusta da Costa leccionava na sua casa, dotando uma parcela da mesma, para sala de aula.

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Profª Beatriz Augusta da Costa.

Instrução Pública no Concelho de Lagoa
(Jornal O Lagoense. Página 3. Número 46, Ano I -27 de Novembro de 1904)
O relatório sobre o estado da instrução pública n´este Distrito, organizado pelo Exmo. Sr. Subinspector, para ser enviado ao Governo começa por este Concelho, dizendo o seguinte:
(…) Água de Pau – sexo feminino. – Tem por único material de ensino 2 quadros pretos, em mau estado, e uma esfera deteriorada e por mobiliário 2 mesas velhas.
(…) Água de Pau – sexo masculino – Possui 6 bancos e 6 mesas, em péssimo estado, de formato antigo e 1 quadro negro em igual estado.
(…) Não pode ser maior a miséria e penúria das nossas escolas públicas, nem sabemos como uma boa parte do nosso professorado, sem material algum de ensino, tem conseguido propor alguns alunos a exame. Só podemos atribuir isso a um grandíssimo esforço de boa vontade e amor á sua nobre profissão. E d´entre esta laboriosa e honrada classe, seja-nos permitido especializar um nome, o da professora oficial do sexo feminino da freguesia d´Agua de Pau, Sr.ª D. Beatriz Augusta da Costa.
Há simplesmente 3 anos que esta senhora se acha na regência daquela escola. No primeiro ano habilitou e propôs a exame do 1º grau 9 alunas, e do 2º 1, que ficaram aprovadas com boas classificações, e, n´este ano, 26 do 1º grau e 5 do 2º, sendo todas aprovadas e as melhores classificadas. Simplesmente extraordinário! Pasmoso!…
N´uma povoação rural onde são frequentes as faltas á escola parece impossível que uma professora, mesmo a despeito de muitíssimo trabalho, possa conseguir tal; mas não o foi para a Sr.ª D. Beatriz, e aí estão bem patentes a confirma-lo. Carecida de mobília e material de ensino se encontrava a sua escola, mas tudo venceu com a sua comprovada ilustração, inteligência robusta, actividade e perfeitíssimo método de ensino.
N´este ano não houve em todo o Distrito outro professor que a igualasse, e muito menos a excedesse, no número de alunos a exame; e afirma-nos a mesma sr.ª professora que está habilitando, para os exames do ano futuro, um número de alunos talvez nunca inferior ao do passado.
Eis uma heroína, um campeão da instrução, um esforçado e valoroso general atacando, batendo e triunfando das cerradas e compactas fileiras do analfabetismo.
O Exmo.º Sr. Subinspector, tendo na máxima consideração os seus valiosos e importantíssimos serviços, quis dar-lhe uma justa e merecida prova de distinção, convidando-a para fazer parte do júri dos exames de 2º grau, honrosa missão de que se houve dignamente.
Se por um lado sentimos ver naquele triste quadro, relatado pelo Exmo.º Subinspector de instrução primária, a pobreza das nossas escolas, consola-nos porem ver e falar d´aqueles que, suprindo estas faltas, nos apresentam prodígios de valor e abnegação. Honra ao mérito.

ANNUNCIO
Pela Administração do Concelho da Lagoa correm editos de 30 dias convidando todas as autoridades, chefes ou gerentes de quaisquer estabelecimentos e todas as pessoas interessadas a apresentarem na Administração do Concelho as reclamações ou qualquer motivo de oposição contra a concessão de licença para a habilitação de um pelame na Rua dos Barrancos da freguezia de Nossa Senhora dos Anjos do lugar de Agua de Pau, requerida por José Vieira Pacheco, do referido lugar.
Vila da Lagoa, 3 de Março de 1904.
O Secretario – Guilherme Gouveia Fragoso
Verifiquei C. Vasconcellos
(In Jornal O Lagoense. Página 3. Número11, Ano I (6 de Março de 1904). Lagoa – Açores)

Da Nossa carteira
Parte no dia 29 do corrente, no Romanic, para a América, o Sr. Francisco Ricardo Botelho, proprietario  d´Agua de Pau.
(In Jornal O Lagoense. Página 2. Número14, Ano I (27 de Março de 1904). Lagoa – Açores)

Por: RoberTo MedeirOs
(Artigo publicado na edição impressa de dezembro de 2016)