A 13 de setembro de 1862 nascia, na Rua do Vigário, freguesia de Nossa Senhora do Rosário, Lagoa, o Padre João José Tavares, sendo filho legítimo de Manuel José Tavares Canário e de sua mulher Maria da Glória Tavares.

Muito aplicado nos assuntos escolares, frequentou o Liceu de Ponta Delgada e, aos 18 anos, completou o curso de preparatórios, matriculando-se, então, em Teologia no antigo Seminário de Angra do Heroísmo.

Para compreendermos a vida do Padre João José Tavares, é talvez oportuno situá-lo como um indivíduo dedicado a quatro causas principais: a administração pública, a música, a investigação histórica e o exercício sacerdotal.

No primeiro campo – o da administração pública -, o grande vigário, que dá nome a uma das ruas de Nossa Senhora do Rosário, foi presidente da Câmara Municipal de Lagoa entre 1908 e 1910, servindo a sua população com toda a sua inteligência e escrupulosa dedicação, o que lhe garantiu toda a estima do povo lagoense.

No campo da música, realce-se, em primeiro lugar, que João José Tavares nasceu no seio de uma família numerosa, onde persistia um assíduo culto aos assuntos musicais.

Juntamente com o seu irmão Manuel José Tavares Canário, foi o responsável pelo aparecimento de uma nova banda filarmónica em 1887, a Sociedade Filarmónica Estrela D´Alva, atualmente sediada em Santa Cruz, da qual se tornou o seu primeiro presidente e para a qual escreve a letra do hino da padroeira da Filarmónica – N. Sra. da Estrela -, hino que se canta e se toca até aos dias de hoje, por ocasião dos aniversários da instituição.

Na área da investigação histórica, era um investigador escrupuloso, como poucos havia, deixando, para a posterioridade, uma obra de investigação histórica que é de mérito e de grande importância: A Vila da Lagoa e o seu Concelho, publicada já após a sua morte, por iniciativa da Câmara Municipal de Lagoa, presidida, na altura, por Francisco Pacheco Vieira, que achou por bem garantir que o trabalho do Vigário não se perdia, “salvando-se assim do esquecimento subsídios muito valiosos das coisas e das pessoas que mais importante papel desempenharam na fundação e evolução desta Vila” – in trecho da acta da sessão de 1 de julho de 1940.

A obra compreendeu anos sucessivos de uma exausta investigação histórica. Dedicou, assim, toda a sua vida à leitura dos antigos cronistas e historiadores destas ilhas e à exploração dos arquivos paroquiais e municipais de Lagoa, recolhendo, progressivamente, todas as notas necessárias que culminaram numa compilação histórica de grande valor que ajudou – e ajudará – a construir a história deste município. Aliás, foi o primeiro trabalho do género que se publicou acerca da então Vila da Lagoa e do seu concelho, o que só o eleva ainda mais.

Segundo as palavras do Dr. Francisco Carreiro da Costa, outro ilustre lagoense que, inclusive, coordenou a publicação póstuma desta extraordinária obra, “A “A Vila Da Lagoa e o seu Concelho” é, neste particular, um trabalho que merece de todos nós o maior respeito, pelo benefício que no campo cultural só por si representa, pelo que a memória do Vigário João José Tavares deverá ser sempre recordada, por todos os lagoenses, como um dos maiores beneméritos da sua terra, a quem por direito cabe o preito da nossa mais viva gratidão”.

Finalmente, no campo do exercício sacerdotal, em 1883, recebeu ordenação sacerdotal, indo pastorear nos Remédios da Bretanha, onde permaneceu três anos, transferindo-se, de seguida, para a Povoação, onde permaneceu apenas duas semanas, por ter sido, de súbito, nomeado vigário da Igreja Matriz de Lagoa, Santa Cruz, a 26 de abril de 1891.

Nunca descurando as necessidades e o bem-estar do seu rebanho, era um apaixonado nato não só pela música, mas também pela poesia e pelo canto, possuindo igualmente distintos dotes de oratória.

Foi o último vigário da Igreja Matriz de Lagoa, onde há um busto em sua memória, assinando o último assento de baptismo em 1932.

Faleceu a 28 de fevereiro de 1933, deixando, para todos nós, o legado do homem de causas, dinâmico, polivalente, meticuloso, trabalhador e incansável que foi.

JTO
(Publicado na edição impressa de abril de 2017)

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