Os de Ca_Malvina SousaJTO_mar17 (2)

A 12 de Março de 1979 nascia, em Nossa Senhora do Rosário, Lagoa, Malvina Sousa. Licenciada em Português e Francês, línguas que lecciona pelas nossas escolas, Malvina é uma das escritoras lagoenses que já contribuíram para o enriquecimento da história literária lagoense.

Com uma poesia arco-íris, esta nossa poetisa acredita firmemente na força da palavra, na força do verso e da estrofe, na capacidade da poesia para nos mover – mas mais ainda, para nos curar. Considerando, num dos seus poemas, que “o difícil não é saltar, é ter a coragem de dar o salto…”, Malvina foi bem capaz de dar esse tão precioso salto que a catapultou para o Momentos, a sua primeira obra poética. E ainda bem que saltou, até porque “Se não estiver disposta a perder/Nunca saberei o que é realmente ganhar!”, como indica, aliás, num dos seus vários poemas.

O seu primeiro livro é um pedaço de literatura que motiva, que empurra, que sente os outros, que se preocupa com os outros, que olha pelos outros, que os levanta das horríveis circunstâncias da vida. E que, invariavelmente, nos vai acabar por ensinar, também, a aproveitarmos aquilo que temos, ainda que pouco. Porque ainda que pouco, é, com certeza, belo.

A sua poesia tem uma particularidade admirável: mais do que responder, pergunta. São vários os pontos de interrogação presentes nos seus poemas. E as respostas estão, como se por magia, subentendidas nas perguntas, disfarçadamente – ou talvez não tão disfarçadamente. Com uma poesia crente no ser humano, no dom da vida, na sua beleza inata, na valorização auto-pessoal e no aproveitamento integral do real, como um enorme pedaço de magia à nossa plena disposição, a autora de Momentos brinda-nos, também, com algo bastante peculiar: poemas na língua francesa.

A primeira obra contém quatro poemas escritos em francês, sendo que os restantes se encontram, claro, na língua portuguesa. Apesar de colorida, a sua poesia não foge da realidade, não disfarça nada, antes, enfrenta e procura enfrentar: não inventa realidades que se possam sobrepor à nossa. Não mente, portanto. O que podemos encontrar na poesia de Malvina Sousa é a realidade estampada de forma fria e frontal, mas – e aí é que se encontra, a nosso ver, todo o valor da sua poesia – a mão da autora tem a capacidade de nos regenerar com essa mesma verdade, com esse mesmo real à nossa volta, como se, a partir dele, pudéssemos, de facto, sair mais fortes. E podemos. Podemos mesmo.

Todos estes comentários surgem após a leitura da sua primeira obra. Procurando conhecer um pouco mais a autora, e também usufruindo do que ela diz acerca de si mesma no dito livro, esta nossa lagoense considera-se uma “mulher de conjugação”, mas “permeável”. Capaz de saltar, ela dá-se completamente aos sonhos, aos outros, a si! Tem uma visão bastante interessante da vida, assemelhando-a a um “cruzeiro”, na medida em que se pode equiparar a uma “daquelas viagens que valem pelas companhias, pelo embalo, pela maresia, pelos momentos breves de felicidade (sempre servida em momentos e no plural) independentemente do porto para onde se dirige.”

A Lagoa tem a agradecer a Malvina pela coragem de dar aos outros. De nos dar as perguntas necessárias à reflexão. De nos dar as respostas necessárias à vida.

Aqui fica uma estrofe que pergunta. E que responde. Porque a resposta, ainda que não a conheçamos bem, vive sempre dentro de nós. E é precisamente isso que a nossa poetisa Malvina tão bem nos ensina.

“Quando olhas para o mar até onde vais?
Onde te atracas, onde te deixas navegar?
De que mundo chegas, de que porto sais?
A que distância ficas tu de naufragar?”

JTO
(Publicado na edição impressa de março de 2017)

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