Cronica-Miguel-Amaral-opinião-artigo

Pois é, nesta minha nova crónica coloco como título uma pergunta, que para muitos pode não fazer sentido nenhum! Comboio?! Em São Miguel?! Que vem a ser isso? À primeira vista pode não fazer sentido nenhum escrever sobre algo que não existe nem nunca existiu por cá, com exceção da linha do Porto de Ponta Delgada, mas isso é outro assunto. No entanto apesar de nunca ter passado do papel, acaba também por fazer parte da história da ilha, por isso nesta crónica de hoje é disso que falarei.

Assim, foi no ano de 1895 que surgiu a primeira ideia de construção de uma linha de Caminho-de-ferro de Ponta Delgada até às Furnas, e seria uma linha de tração elétrica. No ano de 1899, o Governo apresentou às Câmaras uma proposta de lei a autorizar a Junta Geral do Distrito de Ponta Delgada a contratar alguém para construir e explorar uma linha férrea entre a cidade de Ponta Delgada e a turística freguesia das Furnas. No entanto este primeiro projeto não teve quaisquer concorrentes, e a própria Junta Geral não quis avançar, por si só a construção desta linha férrea. Todavia, a Junta continuava a desejar construir o Caminho-de-ferro para as Furnas mesmo sem apoios do governo central.

Em 1901, ano em que a família real visitou a nossa ilha, o Governo fez nova proposta de lei para permitir a Junta Geral a contratar a construção e exploração da linha, mas esta lei tinha algumas diferenças da anterior, sendo até muito mais vantajosa para quem pegasse no projeto, pois, permitia que a tração fosse a vapor ou elétrica e as vias ao contrário do diploma anterior, podiam ser construídas nas bermas ou mesmo sobre as próprias estradas. Ora isto acabava por facilitar o trabalho, pois não era necessário a compra de terrenos para a construção de uma linha totalmente de raiz. Esta proposta de lei de 1901, também acabou com a proibição de empresas estrangeiras concorreram ao projeto, contudo tinham que ficar sujeitos às leis e à justiça portuguesas da altura. A verdade é que pouco tempo depois uma empresa britânica apresentou uma proposta para a construção dessa via-férrea.Mas mais uma vez também este projeto não foi além disso. No ano de 1909, voltava-se novamente a falar do Caminho-de-ferro pois, estavam a ser estudados dois projetos para a construção do Caminho-de-ferro, entre Ponta Delgada e as Furnas. Já em plena República mais precisamente, no ano de 1913, o Ministério das Finanças e Interior de então, publica uma nova lei que deu nova autorização à Junta Geral do Distrito de Ponta Delgada a construir e explorar essa linha de Caminho-de-ferro. Tudo parecia bem encaminhado para a construção desta linha, pois em Maio de 1921, já se havia terminado os estudos e os projetos para se aproveitar a Ribeira dos Tambores, situada na freguesia da Ribeira Quente, concelho da Povoação, para aí se construir uma central para de futuro fornecer energia elétrica ao Caminho-de-ferro.

Contudo devido a diversos fatores este projeto embora tivesse sido sempre aprovado por diversas legislações nunca saiu do papel ficando, a linha de Caminho-de-ferro de Ponta Delgada às Furnas por construir, optando desde então os governantes de resolver os problemas de comunicação da ilha com a construção de novas estradas.

A ter sido construída, a linha teria tido a extensão de 42,180 km, seria servida por 18 estações ao longo do seu percurso. A viagem principiava na cidade de Ponta Delgada, passando depois na Pranchinha onde daqui sairia outra linha projetada, esta para a Ribeira Grande, depois da Pranchinha a viagem continuava passando e servindo as localidades de São Roque, Livramento, Atalhada, Lagoa, Água de Pau, Ribeira Chã, Praia de Água d’ Alto, Vila Franca do Campo, Ribeira das Tainhas, Ponta Garça e terminaria na pitoresca e turística freguesia das Furnas. Provavelmente devido ao número de estações que teria, a linha a construir teria sido para Carro Elétrico, do género do que serve a Vila de Sintra, ou mesmo para comboio a vapor, e que a ter sido concretizado teria servido a atual cidade da Lagoa e todo o seu concelho.

José Miguel Amaral