Coronica-Miguel-Amaral

Nesta minha primeira crónica, resolvi falar um pouco sobre uma personalidade que á primeira vista nada tem a ver com a nossa cidade da Lagoa. Trata-se do Dr. Felix Borges de Medeiros que foi governador civil do distrito de Ponta Delgada no tempo da Regeneração. Bem no fundo ele tem a ver e muito com a Lagoa, principalmente com a freguesia da Ribeira Chã. Mas tem em que sentido? Mais à frente verão que tenho razão, mas por agora concentremo-nos apenas neste ilustre cidadão. Quem foi ele, de onde veio? Na minha mais modesta opinião a melhor e mais simples descrição foi feita pelo famoso jornalista e investigador do século XIX, Francisco Maria Subico, no jornal micaelense A Persuasão em que falo aqui de algumas das notas biográficas: 

O Dr. Felix Borges de Medeiros licenciou-se em direito na Universidade de Coimbra, em 1841, depois de se formar foi viver para o Porto onde casou e foi um advogado de prestígio. Quando em 1851 eclodiu a revolta liderada pelo Marechal Saldanha e conhecida como Regeneração, foi então o Dr. Felix Borges de Medeiros nomeado a 25 de Julho desse mesmo ano governador civil do distrito de Ponta Delgada, cargo que veio a exercer durante 17 anos, que ficaram marcados por um grande progresso civilizacional, no qual se destacam a fundação do Liceu, a navegação a vapor entre Lisboa e os Açores, a extinção dos dízimos e abolição dos morgadios, a livre cultura e fabricação do tabaco, inaugurou-se o porto artificial de Ponta Delgada, construíram-se diversas escolas primárias, construiu o edifício balnear nas Furnas e acabou com as masmorras nos baixos da câmara municipal de Ponta Delgada. 

Ora foi neste período de progresso civilizacional que Dr. Felix Borges de Medeiros e a Ribeira Chã estiveram em contacto, mas de que forma?! Muito simples, através de uma singela doação que ele fez aquele então lugar da freguesia de Água de Pau. Falando agora mais em pormenor dessa doação, tratou-se de uma imagem de São José, que havia pertencido ao convento da Conceição de Ponta Delgada, extinto em 1833 com o fim das ordens religiosas em Portugal. Estando essa imagem guardada resolveu, então o Dr. Felix Borges de Medeiros oferecer em 1856 a imagem à “nova” igreja do lugar da Ribeira Chã que havia sido inaugurada em 1853. 

Essa imagem veio a partir desse dia mudar toda a vivência daquele pequeno lugar e atual freguesia. Mas mudou em que sentido? Ora, historicamente sabe-se que até à vinda da imagem o padroeiro da Ribeira Chã era Nossa Senhora da Ajuda, cuja imagem se encontrava numa pequena ermida construído em 1725 e que dela apenas restam uma sineta, a imagem da Santa e alguns azulejos. Com a construção da nova igreja e com a doação da imagem de São José tudo mudou, pois passou ele a ser o padroeiro da Ribeira Chã e ainda hoje é essa imagem, que se encontra atualmente no Museu Padre Flores pertencente ao Centro Social e Paroquial da Ribeira Chã, que sai à rua em dias de Procissão sendo muito acarinhada por toda a população daquela freguesia do concelho de Lagoa. 

É então neste sentido que o Dr. Felix Borges de Medeiros veio a ser importante para a Ribeira Chã, pois no fundo com a sua doação veio a mudar um pouco a vivência e festividade religiosa daquele povo. 

José Miguel Amaral