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Fomos informados pela comunicação social que, este ano, chegaram ao correio do Santuário da Esperança menos cartas endereçadas a Jesus Cristo dos Milagres. Porquê? Não será eterna, no coração da humanidade, a necessidade de falar, de partilhar alegrias e dores com Deus? Creio que sim, mas o porquê das quarenta e tal em vez das cento e tal cartas… não sei! Mas em Deus nada é acaso, tudo é oportunidade! Deus escreve certo por linhas tortas, dizemos por vezes perante a graça que da desgraça nos oferece.

Eles e elas não enviaram cartas pelo correio, nem trazem candis, nem o odor nas roupas e nas malas que trouxeram das terras que os acolheram há 20, 30 ou mais anos. Eles e Elas foram repatriados, trazem entranhados no coração o erro, a saudade e cheiram a solidão. Estes nossos irmãos e os outros, que mendigam atenção no Campo de São Francisco, são verdadeiras cartas que chegam ano após ano ao Senhor dos Milagres. São cartas vivas que nos falam da fragilidade da vida de todos nós.

A desgraça destes irmãos são oportunidades de salvação. Está escrito nos seus rostos de sofrimento e dor a razão da veneração pela imagem do Senhor dos Milagres: Ele amou-nos até ao fim para nos ensinar a amar sem medida. Serei eu outro louco de Assis, se me ajoelhar e servir o podre dos pobres, Jesus Cristo, que vive nestes irmãos? Certamente que sim! Mas continua a ser-me mais fácil ajoelhar perante a imagem que a tradição guarda no Santuário. Será um engano? Se me curvar perante a imagem do Deus de Amor para amar os outros, não! Não é egano! Estou certo que ofereço um sacrifício agradável a Deus.

Como eu gostava de ter a ousadia e a disponibilidade de coração daquele pai de família que após a missa campal, no Domingo, do Santo Cristo dos Milagres, sentou á mesa de festa dois irmãos repatriados, mal trajados e mal tratados e como uma só família partilharam a refeição.

Senhor dos Milagres ajuda-me a responder em Teu nome a estas e a outras cartas.

Pe. Nuno Maiato

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