José Francisco da Costa Pires já foi referenciado pelo Diário da Lagoa numa edição passada, mas, como as informações disponibilizadas ainda eram escassas, e, talvez, insuficientes para dimensão espiritual da sua obra e da sua vida, resolveu-se, assim, desenterrar mais um pouco a memória deste saudoso poeta natural de Nossa Senhora do Rosário.

Era filho de João da Costa Pires e de Ermelinda Brum Tavares, ambos naturais da freguesia de Nossa Senhora do Rosário. Ermelinda Brum Tavares nasceu na Rua do Vigário, na casa que outrora pertenceu à família Tavares Canário, bastante conhecida por ter albergado dois irmãos ilustres da nossa terra e já referenciados pelo nosso jornal: o padre João José Tavares e o professor e compositor musical Manuel José Tavares Canário.

A 21 de julho de 1942 nascia, em Nossa Senhora do Rosário, o poeta popular que amou, como pouco se vê, a sua terra de origem – por darmos, em geral, maior e infundada importância ao terreno alheio.

Como avós maternos teve Ermelinda de Brum e António Tavares, naturais de Nossa Senhora do Rosário. Ermelinda de Brum foi, inclusive, também, uma figura de destaque na sociedade lagoense, uma vez que era parteira – profissão de extrema importância na altura. Já os avós paternos de José Francisco da Costa Pires eram Margarida Pires e Manuel Pires, também naturais de Nossa Senhora do Rosário.

Ao longo da sua vida publicou duas obras literárias: O Meu Rosário de Saudade e O Mar e o Sonho, tendo sido ambas publicadas em terras de além-mar: nos Estados Unidos da América, para onde emigrou por força das circunstâncias, fixando-se em New Bedford.

Colaborador, durante algum tempo, do Portuguese Times, travou várias guerras durante a sua vida: talvez a mais potente de todas tivesse sido a distância que o separava da sua terra por força do mar que tanto amava e adorava, que tanto lhe iluminava o espírito fiel, alegre e bem-disposto, mas que tanto o condenava a estar longe e a sentir-se longe. A outra, mais feia, foi a Guerra Colonial que travou em Angola, servindo na Força Aérea, numa altura de violenta ebulição.

Mais forte do que o que separava era o que o unia: o amor que explodia da ponta dos dedos diretamente despejado para o papel, o amor que se lhe irradiava do peito cheio de saudade, o amor que sentia pela Lagoa e pelo Rosário e que está tão patente e imortalizado na sua poesia popular. Inclusive, nos Estados Unidos, organizou o primeiro grupo dos amigos da Lagoa e fazia parte dos amigos do Ultramar. Foi o impulsionador da ida de vários agrupamentos aos Estados Unidos, desde filarmónicas ao grupo folclórico, bem como colaborou com a igreja nas suas obras. Contribuiu e organizou vários cabazes a serem distribuídos pelas pessoas carenciadas do concelho, igualmente – fez muito, portanto, sempre a pensar no sítio que o viu nascer. Sempre com uma orientação cívica bastante assertiva.

Operário de profissão, poeta por paixão, José Francisco da Costa Pires permanece e permanecerá sempre “amarrado” à terra, à poesia, ao mar, às pessoas de cá, à vida. A sua poesia traduz exatamente a sua vida, os seus desejos, sonhos, anseios e paixões!

Dotado de uma grande capacidade para estar alegre e ser conversador, faleceu a 25 de novembro de 2014.

Fica a sua poesia. Fica o exemplo do poeta-emigrante.

Fica sobretudo a devoção.

JTO
(Artigo publicado na edição impressa de setembro de 2017)

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