Opinião: Os Bispos de Angra e Ilhas dos Açores – Parte 1

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Nas minhas próximas crónicas aqui no Jornal Diário da Lagoa, vou dedicá-las aos Bispos da Diocese de Angra e Ilhas dos Açores, contando quem foram, de onde eram, quanto tempo foram bispos por cá e o que de principal fizeram. Nesta crónica falarei dos três primeiros bispos:

D. Agostinho Ribeiro (1534 -1540) nasceu em Lisboa, filho de Martim Ribeiro, escrivão da Casa da Índia, e de sua mulher Maria de Carvalho, uma família da pequena aristocracia.

Depois de ordenado sacerdote, terá passado, antes de 1521, alguns anos na ilha do Corvo, embora não seja conhecida evidência documental que suporte esta afirmação de Gaspar Frutuoso.

No reinado de D. Manuel I de Portugal estava em Lisboa, tendo sido nomeado capelão da Casa Real, cargo que não terá chegado a exercer por ter ingressado na Congregação dos Cónegos Seculares de São João Evangelista. Naquela congregação foi por duas vezes eleito geral. O rei D. João III de Portugal escolheu-o para seu pregador e para provedor do Hospital de Lisboa.

Quando o papa Paulo III criou a diocese de Angra, pela bula Aequum reputamus de 5 de Novembro de 1534, o cónego Agostinho Ribeiro foi apresentado e confirmado como o seu primeiro bispo. Tomou posse da diocese a 24 de Junho de 1535, desconhecendo-se a data em que nela entrou. Sabe-se que esteve na ilha do Pico em visita pastoral, desconhecendo-se quando deixou os Açores, mas em 1538, apenas três anos depois de ter tomado posse da diocese de Angra, foi nomeado reitor da Universidade de Coimbra.

Em 1540, dois anos depois da sua nomeação para reitor, foi transferido para a Diocese de Lamego, dando solene entrada na cidade de Lamego no ano de 1541.

D. Agostinho Ribeiro faleceu a 24 de Março de 1549 sendo sepultado na igreja velha do Mosteiro de Xabregas recoberto com uma pedra tumular onde se lia: Sepultura de D. Agostinho Ribeiro, religioso d’este hábito, bispo que foi de Angra, e segundo reitor da Universidade de Coimbra, e bispo de Lamego. Faleceu no ano de 1549. Na galeria dos retratos dos reitores da Universidade de Coimbra existe o retrato deste prelado.

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D. Rodrigo Pinheiro (1540 – 1552) foi filho de D. Diogo Pinheiro, Prior de Tomar e 1.º bispo do Funchal, e neto do Dr. Pedro Esteves e de Isabel Pinheiro.

Foi doutor in utroque jure pela Universidade de Coimbra, sendo depois ordenado clérigo e iniciando uma carreira eclesiástica que o levou ser nomeado em 1528 para abade de Santa Marinha de Ferreiró, de Touguinha e de São Martinho de Soajo (hoje Soajo em Arcos de Valdevez), tudo abadias do Padroado Real.

Em 1539 foi nomeado pelo rei D. João III para o conselho geral do Santo Ofício e para desembargador da Casa do Cível.

O papa Paulo III confirmou-o bispo de Angra por bula de 24 de Setembro de 1540, mas nunca chegou a entrar na sua diocese, permanecendo em Lisboa no governo da Casa do Cível, de que foi um dos primeiros deputados, e como ministro da Mesa da Consciência e Ordens.

Governou a diocese de Angra através de um vigário geral e de visitadores, alguns deles bispos de anel, que conferiam as ordens sacras e mantendo a disciplina do clero. Mandou dar execução às deliberações do sínodo realizado em Lisboa no ano de 1536 que obrigavam os párocos a registarem os baptismos, casamentos e óbitos em livros próprios.

No ano de 1552 D. Rodrigo Pinheiro foi transferido para o bispado do Porto, exercendo aquele cargo até falecer em Agosto de 1572.

Enquanto bispo do Porto mandou construir nas margens do rio Leça a Quinta de Santa Cruz do Bispo, hoje um imóvel classificado, com o objectivo de criar um local de repouso, divertimento e recreio para os bispos do porto. A instalação da quinta levou a que a localidade de Santa Cruz Riba Leça adoptasse o topónimo de Santa Cruz do Bispo.

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D. Frei Jorge de Santiago (1552-1561) teólogo afamado participou no Concílio de Trento, na linha doutrinária na qual depois se distinguiu como grande moralizador da igreja católica açoriana. A ele se deve a reunião do primeiro Sínodo Diocesano da novel diocese angrense. Era frade professo da Ordem dos Pregadores, com profissão feita a 26 de Abril de 1522, no Mosteiro de Santo Estêvão de Salamanca

Estudou na Universidade de Paris e foi laureado em Teologia, tendo depois leccionado na Universidade de Salamanca, onde foi pregador. Mais tarde ingressou no Convento de São Domingos, em Lisboa, onde foi professor. Ganhando fama como teólogo, foi então nomeado pregador régio, mestre teólogo e inquisidor do Santo Ofício (1540).

Foi o seu renome na área da Teologia que levou D. João III a recomendá-lo para o Concílio de Trento, em 1545, tendo participado com destaque em diversas sessões

Foi apresentado Bispo de Angra em 1550, sendo confirmado por bula de 24 de Agosto de 1552 do Papa Júlio III.

D. Frei Jorge de Santiago chegou à sua Diocese nos começos do ano de 1553, dedicando-se ao seu governo com afinco e com energia até aí desconhecida do clero açoriano. Face à falta de organização doutrinária da diocese e à necessidade de nela fazer refletir as normas Tridentinas, em 1559, pela festa do Espírito Santo, promoveu na Sé de Angra o, até hoje, único Sínodo Diocesano realizado nos Açores, cujas constituições então adotadas foram impressas em Lisboa, nas oficinas de João Blavio de Colónia em 1560. Raros são os exemplares da edição princeps destas Constituições, de que por vezes se tem tentado novas edições.

Deste prelado disse frei Luís de Sousa na História de São Domingos:

Posto em Angra achou aquela Ilha, e as mais, mui depravadas em vicios, e algumas almas tão vencidas d’elles, que lhe foi necessario grande valor para as tornar em virtude.

Espírito moralizador e tenaz, enérgico, porventura em demasia, sofreria pela firmeza do seu carácter não poucos desgostos, correndo-se que também passara por não pequenas desconsiderações. O sobredito frei Luís de Sousa regista a seguinte passagem:

Era grande letrado pera conhecer suas obrigações, e grande animoso pera executar o que entendia. Achando alguns, que não sentião bem da fé, cubrio-os de ferros, e mandou-os entregar no carcere do Santo Officio em Lisboa. Apertou com outros com as armas espirituaes em todo rigor, até os meter no caminho dos mandamentos Divinos. Mas custou-lhe ver-se três vezes em fortes perigos. Huma querendo passar de huma Ilha pera outra, foi acometido de gente armada na embarcação, e pera se salvar não teve outre remédio, se não lançar-se ao mar, e valer-se dos braços, e nadar. Outra estando fazendo seu officio de Visitador lhe tirarão com uma espingarda, guardou-o Deos, e matarão hum sobrinho seu, que o acompanhava. Terceira vez tentarão matal-o em certa casa, onde tirava huma devaça: e acometendo as portas os culpados n’ella com armas, e determinação danada, valeo-lhe, que como andava acautelado, acharão-nas trancadas por dentro, e seguras. E com tudo ainda mostrarão descortezia, e poder diabolico, porque chegarão a entaipar o Prelado, ajuntando pedra, e cal, e cerrando-as de parede por fóra. Não faltou gente nobre, e de melhor animo, que lhe acudio.

Era amigo do arcebispo de Braga, D. Frei Bartolomeu dos Mártires, e tido em grande consideração por D. João Bermudes, Patriarca das Índias, que ao passar por Angra, fez dele o seguinte conceito: a tão bom prelado, não se deve chamar D. Jorge, mas São Jorge.

Incrementou as vigarias, determinando que os lugares que tivessem mais de 30 fogos fossem considerados como vigarias e os de mais de 20 fogos como curatos, todos dotados de sacrário e com faculdade de celebrarem as festas da Semana Santa. Estabeleceu para o foro eclesiástico a hierarquia de vigário geral, visitador, ouvidor, promotor, escrivão, meirinho e porteiro; para a jurisdição paroquial, vigário, reitor, cura e tesoureiro; e, nas colegiadas, beneficiado, ecónomo, prioste e apontador. Aumentou as ordinárias ao clero, para que os sacerdotes fizessem face aos preços que já tinham os mantimentos e frutos das ilhas.

Desejou ainda melhorar a instrução sacerdotal ao clero, fundando em Angra um convento da Ordem Dominicana, intento que se logrou por haver falecido entretanto.

Quando estive em Lisboa, aonde fora em negócios da diocese, consta que teria ajustado para fundadores três religiosos dominicanos de boas letras e bom púlpito e obtido todas as licenças necessárias para a fundação do novo convento.

Faleceu a 26 de Outubro de 1561. Foi o primeiro bispo a morrer na Diocese, tendo sido sepultado na Sé Velha. No seu túmulo foi lavrada esta inscrição: H’ic jacet Dominus Georgius a Sto Jacob Pastor Angrensis, inter oves suas, primus sepultus.

Categorias: Opinião

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