Turismo religioso – que caminho se pretende?

Para assinalar o Dia Mundial do Turismo, a Coleção Visitável da Matriz de Lagoa, em parceria com o Serviço Diocesano para os Bens Culturais da Igreja, promoveu o Encontro “O turismo em diálogo com o património religioso”.

Tendo em conta que nos últimos anos há um crescente debate sobre a conexão entre turismo e património religioso, o Encontro “O turismo em diálogo com o património religioso” teve como principais objetivos promover uma reflexão acerca do impacto do turismo no património religioso, partilhar ideias e experiências em torno desta temática, debater os desafios e obstáculos no acesso do turismo ao património religioso, bem como, compreender a influência do património religioso como meio de evangelização junto do turismo.

Se por um lado, denota-se um forte impacto do turismo a nível mundial, por outro, e considerando a crescente importância do património religioso como fonte inesgotável de fruição espiritual e cultural, e um dos principais recursos turísticos a nível mundial, turismo e património religioso encontram-se em estrita ligação para a evangelização.

Segundo Joana Simas, a responsável pelo inventário feito na Igreja de Santa Cruz, é necessário perceber as dificuldades de acesso de um turista em ir a uma igreja ou interpretar o próprio património religioso, dai o encontro e dos intervenientes convidados, para que se possa melhorar os aspetos menos bons, neste âmbito.

Segundo disse ao Jornal Diário da Lagoa, o intuito é promover várias iniciativas para perceber o que o público procura, e se o trabalho realizado está no caminho certo. “Pretendemos realizar iniciativas de sensibilização de preservação de património religioso, debater vários assuntos em torno do turismo e do património”.

Falando neste encontro, Rute Gregório, Professora Auxiliar da UAc e Diretora do Serviço Diocesano dos Bens Culturais da Igreja, que levou a debate o tema “Património da Igreja: conhecer e salvaguardar”, destacou o facto do património religioso ter cada vez mais uma dimensão social e económica. “É uma dimensão que traz o dinamismo que se pretende”, realçou.

A docente reconhece ser um valor capital atribuído a este património que, embora não tenha a ver com a Igreja, é importante, até para a própria valorização e conservação do próprio.

Contudo, Rute Gregório, teme pelos riscos de se tornar, este património, numa mera mercadoria e falta de respeito por esses bens religiosos. “Preocupa-me a banalização que se possa gerar, da própria falsificação, podendo perder-se a essência das coisas. Mas estes são riscos que se podem ultrapassar.

Considera a professora que se houver uma gestão feita por especialistas, e não apenas por gestores “puros e duros”, a Igreja pode encontrar recursos para a própria salvaguarda deste riquíssimo património espalhado por toda a região, considerando que é preciso conhecer e inventariar para que depois se possa salvaguardar, a par do que foi feito na própria Matriz de Lagoa.

Por seu turno, outra das convidadas, Helena Castanho, Gestora Turística-hoteleira, que falou sobre “O Turismo Religioso e os Açores”, destacou a importância de se saber informar bem e corretamente, a quem nos visita.

Neste âmbito apontou inúmeras falhas, reforçando ser necessário desencadear esforços para elaborar roteiros com toda essa informação.

Helena Castanho admite que já se fez alguma coisa, mas é muito pouco, e o que foi feito, tem um cunho muito pessoal e surge como ato isolado.

Neste encontro foi sugerida uma maior interação entre todos, Juntas de Freguesia, Casas do Povo, Igrejas, (…,) para a elaboração desses roteiros turísticos que são essenciais para que se possa perceber e conhecer esse tão vasto património.

Mas este terá de ser um roteiro com dimensão regional, promovendo assim o turismo religioso açoriano, e não apenas individual.

Neste âmbito, ressalvou um dado preocupante que é o facto de muitas das Igrejas estarem fechadas fora do horário de culto, assim como a falta de informação sobre as imagens existentes nas mesmas. “Por fora todas as Igrejas são quase iguais, mas o seu interior é muito rico, e merece ser visto. Cada qual tem uma história para contar.”

Por outro lado, importante será também dar o mínimo de formação a quem tem contato com os turistas, quer seja nas Igrejas ou nas Casas de Cultura, isto para que, quem visita esses locais possam ser melhor informados e, quem recebe, não seja apanhado de surpresa sem saber dar resposta, como ainda acontece em muitos espaços, segundo realçou Helena Castanho. “É preciso também mudar comportamentos e profissionalizar o contacto pessoal com os visitantes”, considerou.

Preservação do património e inventariação foram de resto palavras muito usadas pelos palestrantes neste encontro, até porque o património religioso, não fala apenas da Igreja em si, como fala da própria cultura açoriana e do seu povo.

Serafina Silva, Guia-intérprete de uma operadora turística, diz ser necessário essa preservação, “mas é preciso que se chegue a essa conclusão e se defina que é esse o caminho a seguir”.

Na sua intervenção, intitulada “Património religioso: uma porta fechada?”, voltou a recordar a necessidade de se manter as portas das Igrejas abertas a quem nos visita. “De nada vale ter património, chega-se aos locais e as portas estão fechadas, como acontece com as igrejas, e é preciso assumir esse problema e encontrar uma solução. Há património, mas é preciso mostrá-lo.”

Segundo Serafina Silva, o turismo religioso é um novo conceito e há que desenvolver e resolver uma série de questões em torno deste, desde logo quem está a receber as pessoas tem que saber o que estão a fazer.

Há que formar os guias para se inteirarem e saberem o que dizer aos turistas e há que saber preservar o património, que é de todos.

Recordou, a guia-intérprete, que a riqueza é grande e a Lagoa marca este momento na história colocando em debate esta vertente. “São precisos outros encontros como este, juntando as pessoas e saber que destino se pretende com este turismo religioso”.

Por seu turno, o Pe. Hélio Soares, Pároco e Membro do Serviço Diocesano dos Bens Culturais da Igreja fala exatamente numa pedagogia da fé.

O pároco, que interveio para falar sobre “A evangelização através do património religioso: dificuldades e desafios das paróquias”, adiantou que a Matriz de Lagoa teve esta visionária iniciativa que vai exatamente a esse encontro. “É uma forma de catequização”.

O Pe. Hélio Soares comunga da opinião de que é necessário, neste âmbito, criar um roteiro, e que a própria Igreja disponibilize a informação necessária sobre o seu património.

O pároco fala igualmente num acolhimento que deve ser feito, mas não é fácil, tem de haver uma mudança de mentalidades. “As paróquias não estão preparadas para receber turistas, e os próprios padres terão de mudar nesse aspeto”.

Algo que é unânime é a necessidade duma mudança de mentalidades.

O Pe. Hélio Soares é ainda da opinião que devem, inclusive, ser criadas novas peças de arte, “fazer um novo património”.

Reconhecendo que, enquanto padre, há ainda muitas dificuldade e reticências, mas “cada dificuldade deverá ser um novo desafio a ultrapassar”, afirmou.

DL

Categorias: Cultura, Local, Religião

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