Falar de vinho de cheiro sem invocar a Caloura, não é noticia!

Não é boa pinga nem tem «pingo» de interesse histórico…ainda por cima, se se começa a reportagem com imagens antigas [a preto e branco] da apanha das uvas na Caloura também !

É a mesma coisa que falar da Procissão do Senhor Santo Cristo e não invocar que a imagem veio do Convento da Caloura d’Água de Pau para o Convento da Esperança em Ponta Delgada.

É a mesma coisa que falar da fundação do Primeiro Liceu de Ponta Delgada, sem invocar que o seu fundador – Padre João José do Amaral – nasceu na Vila de Água de Pau.

É a mesma coisa que falar da boa qualidade da água que se bebe nas cidades de Ponta Delgada e Lagoa sem se invocar que as suas excelentes nascentes se localizam em Água de Pau.

Não ignorem a nossa história !

De resto, quem percebe, de boa pinga…ou percebia, quando a havia com fartura na Caloura, sabe muito bem que, o vinho que se produzia na ilha de S. Miguel e se bebia – nas tascas com estatuto e na boa mesa – era o da Caloura.

Os outros, produzidos no resto da ilha, só depois de se ter vendido ou esgotado a produção do vinho de cheiro da Caloura do ano em curso é que tinha venda. Esta é que é a realidade.

Hoje então, o vinho de cheiro que existe, não se pode dizer que comparado com o antigo da Caloura, se pode afirmar de «água-pé», não se trata disso, mas também nunca se poderá comparar ao que se produzia na Caloura de Água de Pau.

No entanto, tem aparecido á venda no mercado-da-saudade, nos Estados Unidos, garrafões de vinho da Caloura, com a fotografia do Porto da Caloura bem escarrapachada e a cores! Essa é boa!

Usam a fama do antigo vinho de cheiro da Caloura para vender vinho produzido noutras localidades da ilha, já que pouco ou nada, infelizmente se produz ainda, vinho de cheiro, na nossa Caloura !

Não se pode falar de vinho de cheiro da Caloura sem invocar as suas vindimas, os cortejos de raparigas e mulheres de lenço na cabeça e voz afinada a cantar pela rua dos Ferreiros e Portela, abaixo e por toda a Caloura, no princípio e fim do dia, até ao dia da adiafa que encerrava com festejos conhecidos em toda a ilha.

O vinho de cheiro da Caloura movimentava toda a Vila de Água de Pau e a sua produção refletia-se na economia local, pois muitas obras, melhoramentos e novas construções e até muitas contas eram pagas no comércio local durante e após as vindimas. É que todos ganhavam direta ou indiretamente com o vinho de cheiro da Caloura.

Tiravam proventos, os rapazes e raparigas, homens e mulheres que se contratavam para as vindimas, as tabernas e casas de pasto e restaurantes locais e pela ilha. Sobretudo os restaurantes e tabernas da Ribeira Grande, que avançavam, aos donos das adegas da Caloura, dinheiro à frente para condicionarem a venda do vinho a outro cliente.

Nas Festas de 15 de agosto, nas décadas do meu tempo, 60s, 70s e 80s ainda da «Quirida» Senhora dos Anjos, na manhã daquele dia, já havia vinho doce da Caloura, nas «vendas» do característico «mercado» de rua na Praça, ao lado dos figos-de-figueira, enquanto nas lojas «canadas» de vinho de cheiro novo jorravam e enchiam copos pelos seus balcões de venda.

Os bons jornalistas que sobre isso tudo sabiam vão desaparecendo, infelizmente, e poucos ainda há que disso sabem.

No entanto, basta pesquisar ou dar um passeio a Água de Pau em dia de Cortejo Etnográfico e procurar entre o povo gente que sabe disso tudo e tudo isso viveu e sentiu na pele momentos ricos do tempo em que se produzia o Vinho de Cheiro da Caloura, na Vila de Água de Pau.

RoberTo MedeirOs
[LAP – No tempo do Vinho de Cheiro da Caloura]

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