1º Centenário das aparições no Monte D’Água de Pau – 3ª parte

A 5 de Julho de 1918 Nossa Senhora apareceu à Joana no Monte Santo

A comunidade da Vila de Água de Pau não é nem nunca foi desfasada das coisas do passado, felizmente. Durante alguns anos, o tema das aparições no Monte Santo de Água de Pau, até fez esquecer, em parte, os excursionistas que atravessavam de autocarro a vila. Vinham com o propósito de se divertirem afrontando o povo, debruçados nas janelas escancaradas do mesmo e de polegar para baixo, ovacionando em altos «berros» – foi aqui, foi aqui…que a porca furou o Pico?

Como dizia, o Pico passou a “Monte Santo d’Água de Pau” e muito se falou e especulou, com o que se contava aos serões, dentro de casa, ou nos bancos da Praça. Os jornais, por sua vez deram destaque ao assunto por algum tempo, referindo-se aos contactos visíveis de fiéis que se deslocaram ao monte no dia 5 de julho de 1918 e a outros que mesmo donde estavam, em diversos locais de Água de Pau, também puderam ver as manifestações da presença de Nossa Senhora no Monte.

Foi o caso de uma menina de Água de Pau que conhecia a Maria Joana Tavares do Canto e a Sofia Paulino, pois era da sua idade. Pediu aos pais que a deixasse ir ao Pico, como tantos outros foram, naquele dia 5 de julho. Os pais assim não consentiram, pois tinham-lhe dado a tarefa de os ajudar a «malhar-feijão» na eira, ali para os lados do Valongo.

No entanto, mesmo do local onde esta menina estava, conseguiu ver as mesmas manifestações da aparição de Nossa senhora, como todos aqueles que também viram, no cimo do monte.

Por outro lado, os pais desta menina não podiam visualizar o mesmo e por isso entenderam que não a deviam ter impedido de ir ao monte, ficando com uma pontinha de remorso, pela forma como a menina lhes transcrevia o que estava a ver e a sentir. Esta menina cresceu, em Água de Pau, casou-se com alguém da freguesia vizinha de Santa Cruz da Lagoa e para lá foi viver.

Passou o testemunho à família e a uma das filhas. Esta, por sua vez, ouvindo a sua filha referir-se sobre uma publicação no Diário da Lagoa do 1º Centenário das aparições no Monte D’Água de Pau a 5 de Julho de 1918, quando apareceu Nossa Senhora à Joana, esta lhe falou da sua avó, que, duma «eira» no Valongo d’Água de Pau, sua terra, também vira o que aconteceu no Monte.

Tenho procurado também desde longa data aproximar-me dos acontecimentos históricos que ocorreram em 1918 no Pico do Concelho, através das minhas pesquisas.

Recordo-me de um dia ter começado uma conversa com Dona Maria do Carmo Correia no Largo do Santiago. Corria o ano de 1993 e eu encontrava-me junto duma equipa que trabalhava nas obras de recobertura da Ribeira do Santiago que fora destruída por uma avalanche de troncos que vieram pela ribeira, destruindo o anterior viaduto e provocado inundações.

Mais concretamente estava eu ao lado dum pedreiro que estava picar a parede antiga, de barro, do quintal, da casa onde a Joana Tavares do Canto e a Joana Paulino, visualizaram pela primeira vez manifestações lá no alto, por cima da parte sul do Pico, que motivou a ir lá cima rezar e a encontrarem-se com Nossa Senhora. Dona Maria do Carmo, pessoa que eu estimava e sempre se me dirigiu com carinho, era prima de Joana Tavares do Canto. Entusiasmada com o interesse do restauro do paredão, mas curiosa, perguntou-me porque estava o pedreiro a bater, com destreza e cuidado, no canto superior, no encontro entre a rua que vai para as Limeiras, defronte da casa paroquial, e o Largo do Santiago? Tratava-se duma minha pesquisa, na procura dos «anjos-da-ribeira» ou azulejos das «almas-do-purgatório» que eu suspeitava que deviam estar por ali, naquele muro cobertos por negligência pela guarnição de barro. Ela sublinhou logo a confirmação das minhas suspeitas, dizendo-me que se recordava de os ter visto ali quando era menina, mas não sabia onde, exatamente. De resto, viríamos a descobrir algumas horas depois um dos azulejos com um «anjinho-da-ribeira».

Mas, a conversa não ficou pelos anjos da ribeira. Falamos a seguir sobre as aparições de Nossa senhora à Joana, sua prima e ela veio sentar-se comigo nas escadas, junto da ermida do Santiago e contou-me de forma apaixonada, com o olhar posto no muro onde o pedreiro continuava a trabalhar. Parecia que estava a ver a sua prima Joana brincando com a Sofia, do lado de dentro do muro, no antigo jardim, junto à japoneira. Eu sempre gostei de ouvir histórias, pela boca de minha mãe, de meu pai e pelos primos Vieiras da Praça, sobre viagens do brasil e outras que tanto sinto saudade, desses momentos e das personagens que as contavam. Mas, esta era diferente, porque eu estava ali mesmo ao lado donde tudo começara, no jardim ou quintal dos avós da Joana.

Além de tudo o que relatei antes sobre as aparições de Nossa Senhora à Joana, sua prima-irmã, a Dona Maria do Carmo também me falou duma outra senhora que mantinha bem viva na sua memória de menina os acontecimentos que partilhara em 1918. Era a Odília que em 1993 ainda era viva e também subira ao Monte Santo com as duas outras meninas, Joana e Sofia, na companhia da tia-avó, quando elas iam ali rezar.
Contou-me Dona Maria do Carmo que Maria Odília Almeida Melo tinha 11 anos quando subira ao monte com a Joana e a Sofia. Segundo a Odília, a Joana falava com nossa senhora, já a Sofia não, porque rogava pragas, pensava.

Mesmo da janela da casa do seu avô Odília podia ver multidões a subir ao monte e ela também o subia com as amigas, mas admitia que não era fácil subir ao monte coberto de silvas sem se picar. Por isso, admirava-se como a joana o conseguia, para poder ir encontrar-se com Nossa Senhora, pois tinha de subir pelo lado detrás do monte e não pelo lado de cá.

Para se subir ao Monte tinha-se de descer a rua dos Ferreiros até passar a «pedreira» onde se retiravam cascalhos para corrigir os caminhos d’Água de Pau. A seguir, havia um pequeno atalho que dava para uns casebres de famílias pobres e por detrás destes é que havia um minúsculo atalho que se perdia em silvados e por isso de muita dificultosa tarefa para se chegar ao lugar, um pouco antes do fim, a sul do monte, onde Joana se encontrava com a Nossa senhora.

Segundo Dona Maria do Carmo, Maria Odília e um jornal da época, quando Joana falava com Nossa Senhora ficava com um círculo branco à volta dos olhos. Um dia Joana disse à mãe e à tia-avó, depois de vir do monte: “quando Nossa Senhora me vier buscar eu deixo ali sobre aquelas pedrinhas, a minha roupinha”.

Como antes também já se disse, as pedrinhas vieram a criar uma auréola de superstição que ainda dura na mente de quantos pauenses ainda hoje sobem ao monte, porque o jornal “Autonómico” de Vila Franca, pela pena do seu redator, Rodrigues Carroça, as imortalizou quando um dos crentes que subiram ao monte no dia das aparições, depois da passagem da Joana, já desmaiada, devido ao êxtase, se baixou e apanhou terra que a mesma antes pisara, a qual cheirava a rosas !

Dona Maria do Carmo, continuava a falar-me de Odília e de sua experiência aos 11 anos de idade. Recebera-a na sua casa e muito conversaram sobre o assunto, sem os seus 95 anos de idade de então a perturbar nem a memória, nem o discernimento. Apesar de ter emigrado para o Canada onde vivia com uma filha, e de lá ter vindo a Agua de Pau de visita e poder recordar os acontecimentos que ocorreram em 1918, no dia 5 de Julho, nunca se esqueceu nem de os recordar, nem deles falar porque sempre foi fiel àquilo que Joana vira e contara ao povo de Água de Pau.

A ERMIDA
Segundo a Dona Maria do Carmo, “depois da morte da minha prima os meus tios decidiram dar cumprimento à vontade da sua filha vidente Joana.”

Sobre o assunto debruçar-nos-emos numa próxima edição.

 

Por: RoberTo MedeirOs 
(Artigo publicado na edição impressa de outubro de 2018)

Deixe o seu comentário

Your e-mail address will not be published.
Required fields are marked*