Espaço saúde: Sobre o consumo de álcool

Segundo o Relatório Anual 2016/17 do Serviço de Intervenção nos Comportamentos Aditivos e nas Dependências (SICAD), os Açores destacaram-se com os valores mais elevados ao nível das prevalências de consumo de várias bebidas num curto espaço de tempo, comportamento designado binge, embriaguez e dos consumos de risco ou dependência.

Os Açores são destacados por ser a região do país onde se registaram os valores mais elevados de consumo de risco.

Nos Açores registaram-se também um aumento dos óbitos por consumo de álcool, contrariando o decréscimo nacional.

O Governo dos Açores tem desenvolvido esforços no sentido de fazer face a este grave problema de Saúde Pública. Do Plano de Ação para a Redução dos Problemas Ligados ao Álcool nos Açores faz parte a proibição da venda e consumo de álcool a menores de 18 anos.

Não obstante a importância desta medida, a sensibilização continua a ser fulcral na mudança de atitude em relação ao consumo excessivo e precoce de álcool.

Considerações:
O álcool etílico ou etanol é uma substância que resulta da fermentação de açucares de produtos de origem vegetal como a fruta e o mel.

 A concentração de álcool depende do tipo de bebida, o grau de álcool de uma bebida é a percentagem de volume de álcool puro. Como exemplos, a cerveja possui 6%, o vinho 12%, o whisky 40% e shots 40% ou mais.

Um vinho com 12,5% vol. contém 12,5 ml de álcool/100 ml de vinho x 0,8 g/ml = 10 g de álcool/100 ml de vinho (1 copo). Se beber 2 copos vai ingerir 20 g e por aí fora. 

Álcool (g) = % vol x volume da bebida (L) x densidade do álcool 

O consumo de bebidas alcoólicas considera-se não excessivo ou de risco quando consumidas em quantidade moderada de forma regular ou esporádica não ultrapassando no homem dos 18-64 anos até duas bebidas padrão ou 20g de álcool diárias. Acima dos 65 anos o consumo deve reduzir-se a uma bebida padrão por dia ou 10g de álcool. Na mulher não deve exceder uma bebida padrão por dia ou 10g de álcool puro.

O consumo está contra indicado em crianças, adolescentes, gravidas, em algumas doenças, juntamente com alguns medicamentos, em condutores e operadores de máquinas.

Alcoolismo
Considera-se alcoolismo um padrão de consumo de álcool, prolongado no mínimo durante 12 meses, que leva a sofrimento e associa-se a consumo de grandes quantidades ou por períodos prolongados; desejo persistente; muito tempo gasto em atividades para obtenção e consumo de álcool; uso recorrente com comprometimento da vida laboral e familiar; uso continuado apesar do impacto social; mudança de rotinas diárias para consumo; uso de álcool em situações com risco para a integridade física; manutenção do consumo apesar das consequências físicas ou psicológicas inerentes; tolerância com necessidade de quantidades progressivamente maiores ou diminuição do efeito para a mesma quantidade de álcool; sintomas de abstinência na ausência de consumo.

Existem muitos fatores de risco para alcoolismo desde a idade precoce de inicio do consumo, consumos regulares, alcoolismo na família, doenças do foro psiquiátrico, grupo de amigos que consomem álcool frequentemente, situações de pobreza e exclusão social entre outros.

Consequências
Intoxicação alcoólica aguda

As manifestações agudas da intoxicação alcoólica prendem-se com a ação do álcool a nível do cérebro e dependem da quantidade e tipo da bebida alcoólica consumida, assim como da tolerância de cada indivíduo a esta substância.

Valores entre 0,5-0,8 g/L causam euforia, desinibição, ligeira perda da capacidade cognitiva e do tempo de reação.

Valores entre 0,8-2 g/L levam à perda de capacidade cognitiva, agressividade

Valores entre 2-3 g/L causam alteração da memória, do equilíbrio e dos órgãos dos sentidos, ocasionam vómitos

Valores entre 3-4 g/L levam à perda de consciência, coma

Valores superiores a 5 g/L põem em risco a vida.

O consumo excessivo e prolongado de álcool está associado a um conjunto de consequências em função da quantidade, da duração e de fatores inerentes a cada individuo. Todo o organismo pode ser afetado sendo os sintomas mais comuns a nível neuromusculares as cãimbras, perda de força, dormência e desequilíbrio, a nível gastrointestinais, úlceras, varizes esofágicas, gastrite, pancreatite, hepatite, cirrose, no que toca aos problemas cardiovasculares destacam-se a hipertensão, arritmias e aumento do risco para acidentes vasculares cerebrais (AVC).

A nível sexual leva à diminuição do desejo sexual (libido), ejaculação prematura, impotência e infertilidade.

Para além dos efeitos nocivos sobre o organismo, o alcoolismo tem consequências, muitas vezes, devastadoras, na família, na atividade laboral, na sociedade.

Tratamento
O tratamento da dependência alcoólica requer uma abordagem individualizada e multidisciplinar, pode incluir o internamento numa instituição ou numa comunidade terapêutica.

O tratamento farmacológico é direcionado ao controlo dos sintomas e redução do desejo de beber.

Não há nenhum medicamento para curar o alcoolismo.

A psicoterapia é complementar ao tratamento farmacológico. O suporte familiar, amigos e grupos de apoio, como os Alcoólicos Anónimos, é fundamental para a recuperação. O acompanhamento médico a longo prazo é também necessário para assegurar o processo de abstinência, prevenindo as recaídas. 

Prevenção
Evitar o consumo excessivo e frequente de bebidas alcoólicas.

Dada a complexidade do tema abordado e da natureza desta publicação poderão ter ficado alguns aspetos por desenvolver. Aconselho que em caso de dúvidas ou necessidade de mais informação procure o seu médico ou enfermeiro de família.

 

Dr. João Martins de Sousa
Delegado de Saúde de Lagoa
(Artigo publicado na edição impressa de agosto de 2018)

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