Não queria sentar-me naquela cadeira!

Já era noite, quando cheguei a campo. Os escuteiros ultimavam a velada de armas: uns afinavam as guitarras, outros cantarolavam os cânticos e os mais velhos estavam a terminar de lavar a louça do jantar… todos atarefados para preparar o terreno, o melhor possível, para acolherem os familiares que vinham participar na festa.

Entretanto, eu, também, me preparava, interiormente. Andava à procura das melhores e mais assertivas palavras para dizer aos rapazes e raparigas, que no dia seguinte, iriam fazer a promessa de escutas, quando vejo uma senhora trazer uma belíssima cadeira, toda encerada, daquelas que se (res)guarda para sentar as visitas. A senhora, com um grande sorriso nos lábios, olhou-me nos olhos e colocou a cadeira aos meus pés. «É pro senhor padre se sentar», disse uma dirigente, que estava a meu lado. «Para mim?», perguntei-lhe. «Sim para o senhor!» respondeu-me ela.

Não queria acreditar, pois em campo não é hábito haver cadeiras daquelas. Olhei à minha volta, para ver se existiam mais algumas cadeiras, mas não encontrei, nem daquelas nem das outras, não havia mais nenhuma. Disse, então, para mim próprio «Eu não me sento ali!» Seria uma falta de respeito para com as pessoas que estão no acampamento. «No entanto, eu não posso ser mal agradecido» continuava eu a falar com os meus botões. Fiquei inquieto, durante alguns minutos, sem dizer uma única palavra e sem saber o que fazer. Quando, de repente, lembrei-me porque estava ali e, aliviado, encontrei a atitude correta e, melhor ainda, as palavras certas para dizer aos aspirantes a escuteiros.

Iniciamos a vigília, cantamos, refletimos, recordamos as leis e as máximas dos escuteiros e, num instante, como acontece quando estamos a passar um bom momento entre amigos, como irmãos, estava quase a terminar. Mas, antes, era hora de proclamar o Evangelho e dizer as tais palavras que eu ainda há pouco tinha estado à procura. Então, comecei por contar o que tinha vivido por causa da dita cadeira, explicando o porquê de ter aceite sentar-me.

Eu estava ali em nome e no lugar de Jesus, a cadeira não surgiu porque sou filho da Maria e do Manuel, nascido e criado em Santa Clara, ou por ser alguém mais importante que os outros que estavam em campo e sim para alguém igual aos demais, mas que, pelo sacramento da ordem, recebeu a inexplicável missão de emprestar o corpo e alma a Jesus para Ele estar no meio dos que n’Ele acreditam.

Se me sinto indigno de tal missão? Sempre! Ou melhor, cada vez mais, mas foi por Sua vontade, que fui escolhido para tornar visível a sua presença no meio dos seus seguidores. Assim acredito, acreditam os cristãos.

Era preciso uma cadeira especial? Não. Graças a Deus, que cada vez mais católicos, padres e leigos, vão redescobrindo o essencial. Teria Jesus se sentado naquela cadeira, que por momento, mais parecia um trono? Sim! Porque ter-se-ia sentido, como eu, amado! Afinal, foi um grande gesto de amor, para com um pequeno sacerdote d’Aquele que nos amou sem igual e que nos sugere, constantemente, amar com a mesma intensidade e gratuidade.

Foi por amor que eu me sentei na dita cadeira.

Pe. Nuno Maiato
(Artigo publicado na edição impressa de abril de 2018)

Categorias: Cultura, Opinião

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