Não sei o que é “ir de Romeiro”

Nunca fui como peregrino numa Romaria Quaresmal, apesar de ser diretor espiritual do Movimento de Romeiros de São Miguel. Enquanto não fizer a caminhada, terei muita dificuldade em descrever esta vivência, partilhada por mais de dois mil homens, ano após ano, há quase quinhentos homens. Cada Romaria é sempre única e especial, pessoal e comunitária e por isso, alguém que não faz parte de um Rancho, terá sempre embaraço em testemunhar o que é uma Romaria Quaresmal.

No entanto, atrevo-me a identificar o que é que congrega, numa peregrinação secular e singular, tantos homens de várias idades, de diferentes origens familiares e sociais. Por aquilo que eu tenho tido oportunidade de vivenciar, é o Amor que os reúne e que os move.

Antes de qualquer outro Amor, é o de Deus que os une e os torna rancho de irmãos. Deus é Amor e revelou-se com este modo de ser, em Jesus Cristo, na sua Páscoa. Assim sendo, a Paixão, Morte e Ressurreição do Filho Unigénito de Deus é a maior prova do amor de Deus pela humanidade, por cada homem e mulher. O irmão romeiro, sente-se amado por Deus, e é este amor sem igual, que o torna peregrino em busca da Sua misericórdia. Mesmo que o seu ego aparente algo de diferente, só quem se sente pequenino, imperfeito diante da grandeza e perfeição de Deus, é que «vai de romeiro», porque se sente necessitado de ser amado pelo Supremo Amor. Cada Rancho sai e regressa a uma comunidade cristã, onde se faz a experiência do amor de Deus, sobretudo nos sacramentos da penitência e da eucaristia, celebrados numa só fé e num só batismo.

O Romeiro não deixa a família para trás, priva-se de partilhar com a esposa, com os filhos e demais familiares e amigos as actividades e ocupações do quotidiano, mas por amor, leva-os no pensamento e na oração. Neste exilio, cada homem encontra-se e renova-se na convivência com outras famílias, primeiramente com o rancho, uma família, com as virtudes e defeitos comuns a todos os grupos sociais, mas onde, pela robustez da irmandade, se experimenta verdadeiramente o amor. O procurador das almas é quem acolhe outras famílias no seio do rancho, aquelas que a ele se dirigem para suplicarem do amor de Deus, remédios para as suas almas. Cada dor e aflição é prece que o rancho, confia a Jesus, por meio da Maria. Este ofertório é mais uma vez, e se calhar a vez maior, em que o romeiro se sente amado por Deus, porque se sente indigno da grandeza de tal missão. Neste contínuo encontro de famílias, que é uma romaria, o amor ao próximo também se torna visível, nas famílias que partilham o que são e o que têm durante a caminhada e no momento da pernoita, neste último, é Jesus quem é acolhido, na pessoa de cada irmão e ao partilhar a intimidade de cada lar, o romeiro frequenta uma autêntica escola de compaixão. Normalmente, dá-se do melhor, do muito ou do pouco que se tem em casa.

Um dia desses, alguém dizia que uma romaria era «uma injeção», e eu acrescento, de amor para curar do desamor com que o mundo contamina o coração de cada romeiro.

Não sei o que é «ir de romeiro», mas sei que é ser cristão, é ser amor, é amar e ser amado por um Deus e em nome de um Deus que é Amor.

Pe. Nuno Maiato
(Artigo publicado na edição impressa de março de 2018)

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