Voz do Passado – A imprensa lagoense antiga | 14

Há circunstâncias nas quais «fatos» objetivos e reais têm menos importância do que crenças pessoais. … Mas por que tantas pessoas acreditam em «boatos», mesmo aqueles de teor absurdo? Sabe-se é que desde sempre que se um boato se espalha é porque encontra eco nos ouvintes, ou seja, para eles, naquele instante, a história faz algum sentido – não soa como mentira.

Há mais de cem anos na imprensa lagoense, em 1904, “O Lagoense” referia-se, entre outras notícias daquela vila, a alguns «Factos e Boatos» curiosos que ocorreram no «logar» de Água de Pau. Estranho como rotulavam a Vila de Água de Pau de «logar»!

 

FACTOS & BOATOS D’ÁGUA DE PAU  
O grande acontecimento que prende a atenção de todos os habitantes d´Água de Pau é a grande viagem aérea que os nossos amigos Srs. Manuel da Costa Branco e Manuel Pacheco d´Agostinho, ricos capitalistas daquela localidade e entusiastas “sportmans”, pretendem fazer á exposição de S. Luiz.
O balão foi encomendado ao sr. Zequeli, o melhor fabricante de aeróstatos da Alemanha, devendo ter a capacidade de 16:000 metros, e pesando com os acessórios, dez viajantes e lastro, 8:300 kilos aproximadamente. Está-se provendo tudo convenientemente; levará dez camas, viveres para 6 dias, incluindo quatro pipas do belo vinho de cheiro da Galera, e uma reserva de conservas e bolachas.
Aparelhos científicos muito completos e acumuladores elétricos para darem luz durante 250 horas.
Para o caso de uma queda no alto mar, a barca leva um envoltório impermeável e as quatro pipas, (que por essa ocasião deverão já estar vazias) servirão de flutuadores que deslocarão 11:500 kilos, mais que suficientes para suster a barca com o seu conteúdo, convertendo-a em bote.
Acompanham os distintos aeronautas os srs. João Carlos Tavares do Canto, António Guilherme de Almeida, Francisco Pimentel Araújo, Francisco da Silva Pacheco, Luiz Maria Fragoso, António Guido Lopes e José Ignacio de Medeiros.
A lembrança das quatro pipas para no caso de sinistro servirem de flutuadores, partiu do sr. António Guido Lopes, apresentando razões tão convincentes que mereceram a aprovação de todos os aeronautas.
Desejamos aos arrojados viajantes uma esplêndida viajem e contem que para a segunda, se nos permitirem, seremos seus companheiros.
[In Jornal O Lagoense. Página 2. Número 8, Ano I (14 de fevereiro de 1904). Lagoa – Açores]

ANUNCIO
Pela Administração do Concelho da Lagoa correm editos de 30 dias convidando todas as autoridades, chefes ou gerentes de quaisquer estabelecimentos e todas as pessoas interessadas a apresentarem na Administração do Concelho as reclamações ou qualquer motivo de oposição contra a concessão de licença para a habilitação de um pelame na Rua dos Barrancos da freguesia de Nossa Senhora dos Anjos do “logar” de Agua de Pau, requerida por José Vieira Pacheco, do referido “logar”.

Vila da Lagoa, 3 de março de 1904.
O Secretario – Guilherme Gouveia Fragoso
Verifiquei C. Vasconcellos
[In Jornal O Lagoense. Página 3. Número11, Ano I (6 de março de 1904). Lagoa – Açores ]

Da Nossa carteira
— Parte no dia 29 do corrente, no Romanic, para a América, o Sr. Francisco Ricardo Botelho, proprietário d´Agua de Pau.
[In Jornal O Lagoense. Página 2. Número14, Ano I (27 de março de 1904). Lagoa – Açores]

— Acham-se afixadas as listas para arrematação de fóros e pensão pertencentes á Junta de Paroquia de Nossa Senhora dos Anjos, d´Agua de Pau.
Os foros são no Moinho da Vila, Canada do Moinho, Ginjal, Parol, Caminho do Rochão e Rua do Ferreiro.
[In Jornal O Lagoense. Página 3. Número18, Ano I (24 de abril de 1904). Lagoa – Açores]

— No dia 27 do corrente, pelas 2 horas da manhã, faleceu em Agua de Pau Manuel da Costa Branco, contando apenas 32 anos de idade.
Morrendo sem testamento, deixou uma avultadíssima fortuna a seus pais, seus únicos e universais herdeiros. Ficam-lhe dois irmãos, Francisco da Costa Branco, residente em Agua de Pau, e José da Costa Branco, comerciante em Manaus. Que descanse em paz.
[In Jornal O Lagoense. Página 3. Número19, Ano I (1 de Maio de 1904). Lagoa – Açores]

—  Informa-nos o nosso correspondente de Água de Pau que o povo d´ali está muito satisfeito com o professor sr. João de Mattos Carreiro, que este ano tenciona dar a exame 9 crianças.
— Em Água de Pau o nosso amigo sr. Manuel Pimentel Loureiro esmolou 200 pobres com 625 réis cada um, e distribuindo-lhes também pão e carne. E digna de registo esta Acção generosa.
[In Jornal O Lagoense. Página 3. Número 24, Ano I (12 de Junho de 1904). Lagoa – Açores]

 

Por: RoberTo MedeirOs
(Artigo publicado na edição impressa de fevereiro de 2018)

Categorias: Cultura, Voz do Passado

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