Dia e Noite de Reis por Horácio Lima

Horácio Lima

Dia e Noite de Reis

Até meados do século XX ora findo, a Igreja comemorava em dia festivo de preceito, 6 de Janeiro, os Magos do Oriente que, segundo o Evangelho, vieram guiados por uma estrela adorar Jesus em Belém.

Nesses tempos, os templos açorianos enchiam-se de fiéis, dos mais aos menos jovens, para assistirem à Missa dos Reis pelas quatro da madrugada. E com que inefável alegria eram contemplados os presépios, uns com figuras de tamanho natural, pintados sobre papelão, outros com bonequinhos de barro espalhados por caminhos de serradura e, nos campos, pastores a apascentar rebanhos a vaquinha e o jumento a aquecerem com o seu bafo o Menino Jesus, deitado nas palhinhas da manjedoura de uma gruta onde sua Mãe, Virgem Maria, e S. José, seu Pai, o acariciavam. A completar o quadro, o casario, a ervilhaca, o musgo e a pedra queimada a dissimular o anacronismo e a perspectiva. Com a Igreja cheirando a flores, desde o indiscreto cedro às rosas, do Japão, com as harmonias do órgão de tubos realçados pelo violino, eis o ambiente em que o sacerdote celebrava a Missa dos Reis.

CANTAR DOS REIS

Na noite anterior ao Dia dos Reis, repentistas vinham solicitar ao meu Pai assistência de elementos da sua Tuna para os acompanhar. Anuído o convite, arrancávamos pelas 9 da noite a caminho da casa dos amigos. Ao aproximarmo-nos das suas casas, batíamos à porta e logo a Tuna fazia a introdução de uma melodia típica e o cantador iniciava uma quadra que era repetida por outras vozes. Minutos depois – às vezes dava tempo para o cantador evidenciar os seus dotes poéticos natos -, uma janela entreabria-se. Às vezes a casa estava já mergulhada na escuridão e então acendiam a luz, a porta abria-se de par em par e éramos recebidos condignamente. Ofereciam-nos biscoitos, bolinhos caseiros, massa sovada feita em casa e vinho de cheiro. Seguia-se uma rodada de licores, uns de leite, de canela ou de baunilha, outros de tangerina ou de limão.

Certa vez em que estávamos ainda muito animados e distraídos na casa da última família, alguém veio-nos chamar para ir tocar na Missa dos Reis. E lá fomos, deixando a música profana em paz. Pouco passava das 4 da madrugada quando tocávamos os primeiros compassos de uma Missa, sendo organista meu Pai, e eu violinista e o regente da capela um professor de elevada cultura. Facto inédito foi o regente, ao chegar à homilia, ter ido refrescar-se na torre dos sinos, contígua ao coro, para se aliviar de alguns graus desferidos à sua sobriedade.

Lagoa, Açores
3 de Janeiro de 2000
(Publicado em janeiro de 2000, num jornal de Espinho, da autoria do lagoense Horácio Lima)
(Artigo republicado na edição impressa de fevereiro de 2018)

Categorias: Cultura, Opinião

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