Felicidade e tristeza, presentes na celebração do 40º aniversário do restaurante “O Carlos”

O restaurante “O Carlos” situado na freguesia de Nossa Senhora do Rosário, na Lagoa, completou, no passado dia 2 de janeiro, 40 anos de existência.

O aniversário foi festejado de forma simples e não como tinha sido planeado e sonhado pelo falecido Norberto Ponte. Efetivamente, no passado dia 22 de janeiro, o antigo sócio-gerente do restaurante “O Carlos”, completou um ano que faleceu, deixando saudades e muitos projetos por concretizar.

O restaurante familiar, “O Carlos”, surgiu há 40 anos, com o projeto dos pais de Eleonora e Norberto Ponte, tendo o pai, Carlos, dado o nome ao mesmo. Ligados à área comercial desde muito jovens, decidiram adquirir o estabelecimento, começando este negócio do zero, sendo inicialmente apenas um bar.

Com o passar dos anos, surgiram os petiscos, confecionados pela mãe de Eleonora e Norberto, seguindo-se do ponto de partida para o aparecimento do restaurante: a confeção das panelas de comida caseira.

Enquanto pequenos, os dois irmãos, Norberto e Eleonora, foram criados no ambiente da restauração, aprendendo, diariamente, a gerir este espaço, nomeadamente observando e ajudando os pais.

Numa entrevista ao Jornal Diário da Lagoa, Eleonora Ponte, confessa que “o bichinho” falou mais alto e apesar dos pais incentivarem sempre os filhos a estudar, ambos decidiram seguir o caminho dos pais e fazer da restauração o seu modo de vida.

“Surgiu ao longo da vida, sempre estivemos aqui, saíamos da escola para aqui”, referiu a sócio-gerente, explicando que esta vocação apareceu naturalmente, sendo que, após o casamento dos irmãos, o cunhado e cunhada, também se juntaram ao trabalho no restaurante.

Atualmente, “O Carlos” é gerido pela Eleonora Ponte e por Natércia Ponte, mulher do falecido Norberto, ambas sócio-gerentes do mesmo.

Eleonora admite que, em 40 anos, muitas coisas mudaram e evoluíram ao longo do tempo, no entanto, as bases, essas, jamais mudarão, nomeadamente: o sentimento de luta, sacrifício, respeito pelo cliente e servir com a melhor qualidade.

“Em questão de mudança, nós temos que acompanhar o tempo, as coisas vão evoluindo, apesar dessas crises todas, tentamos sempre acompanhar. Ninguém escapou à crise e acho que só sobreviveram os mais fortes”, disse a empresária, relembrando que “O Carlos” conseguiu “sobreviver” a muitos percalços, principalmente à dor do falecimento do seu irmão e às diferentes crises económicas, que fizeram fechar tantos outros restaurantes.

Segundo a empresária, apesar da morte do irmão ter mudado algumas coisas, nomeadamente a forma de gerir a empresa, a linha de pensamento e objetivos, esses, serão sempre os mesmos.

“Era ele quem dava a cara, eu ficava mais na retaguarda. Ele era uma pessoa mais expressiva, eu, se calhar, não sou tanto como ele, mas não deixamos de ter os mesmo objetivos”, refere a gerente, afirmando que a dor da perda, para além de familiar, também é profissional, admitindo ter perdido o seu “pilar”. Relativamente aos clientes, Eleonora sente-se muito agradecida por estes terem sido um grande apoio neste ano de luto, demonstrando serem mais do que simples clientes, mas sim, verdadeiros amigos.

Com dois filhos e duas sobrinhas, relativamente ao futuro do restaurante, nomeadamente se preferia que o mesmo continuasse a ser gerido pela família, passando de geração em geração, Eleonora Ponte tem algumas preocupações e reservas. Por vezes, gostava que o restaurante continuasse na família e fosse, futuramente, gerido pelos filhos ou sobrinhas, porém, “penso sempre duas vezes se queria os meus filhos aqui ou não”, pois admite que a vida da restauração implica muitos sacrifícios.

“Ao fim ao cabo, deixas de ter vida própria e tudo gira à volta disso”, explica, relembrando que a vida pessoal passa, quase sempre, depois do trabalho e apenas se realiza em função do mesmo.

O turismo, ou falta dele, no concelho de Lagoa, foi uma “luta” e um tema muito importante para Norberto Ponte, tendo várias vezes afirmado que “o turismo ainda não chegou à Lagoa”. Após um ano, Eleonora Ponte, acredita que, com a abertura dos vários Alojamentos Locais na Lagoa, cada vez mais, os turistas frequentam e consomem na restauração lagoense, afirmando, por exemplo, que o serviço “take away disparou no verão”.

Segundo a empresária, um hotel na Lagoa, melhor aproveitamento da costa e uma verdadeira aposta nos desportos aquáticos, seriam uma mais valia para o conselho, atraindo cada vez mais turismo.

“Temos um Clube Náutico completamente abandonado, não há um miúdo lá, não há nada”, criticou Eleonora Ponte, lamentando que a costa, “lindíssima” da Lagoa, não seja aproveitada de melhor forma.

Por outro lado, o turismo lagoense, durante o inverno, melhorou, no entanto, a gerente relembra que a Lagoa, foi a única cidade da ilha de São Miguel, que não teve fogo-de-artifício na Passagem de Ano, acreditando que o mesmo seria atrativo. Relativamente ao Mercadinho de Natal ter tido lugar, este ano, na Praça de Nossa Senhora do Rosário, Eleonora Ponte afirma ter sido positivo, tendo ajudado a restauração local. Sugere ainda, o alargamento dos dias em que este ocorre, dando continuidade do mesmo até ao Natal e a inclusão de produtos dos agricultores locais, havendo um mercado no próprio Mercadinho de Natal.

O restaurante “O Carlos” não tem um cliente típico, desde a pessoa mais humilde à bem sucedida, muitos são aqueles que frequentam este estabelecimento, para poderem degustar a comida “caseira”, tradicional e regional. A imagem de marca deste restaurante passa pela “comida de panela” e os pratos típicos que o caraterizam são: o arroz de lapas, polvo assado e os torresmos caseiros.

A longo prazo este estabelecimento de restauração lagoense não tem projetos futuros, até porque, Eleonora Ponte com a experiência vivida ao longo dos anos, aprendeu a viver “dia a dia”.

Segundo a empresária, o segredo para o restaurante “O Carlos”, conseguir atravessar tantos dissabores e continuar a funcionar, passa pela “resiliência, perseverança, esforço, dedicação e principalmente amor a esta casa e cada vez que me falha as forças, lembro-me sempre do meu pai e da minha mãe”.

Apesar de todo o sacrifício e luta diária, Eleonora Ponte nunca pensou em desistir, principalmente por sentir que está a cumprir a sua missão e ter satisfação por isso, afirmando que na desgraça consegue tirar ilações positivas e lições de vida.

DL/AS

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