Opinião: O declíno acentuado das funções executivas podem ser indicadores de doença

As funções executivas consistem num conjunto de capacidades que permitem ao indivíduo direcionar o seu raciocínio e comportamento para determinadas metas ou objetivos. São exemplos a capacidade de iniciar e planear uma tarefa, inibir ou alterar determinada ação, elaborar estratégias para a resolução de novos problemas, formar conceitos abstratos, avaliar e regular o próprio comportamento. Estas funções, essenciais para a adaptação do indivíduo ao meio ambiente, dependem da integridade de estruturas cerebrais localizadas no lobo frontal. Estas estruturas podem ser danificadas por infecções, traumatismos cranianos, tumores, doenças degenerativas, abuso de drogas e álcool, entre outras. Quando a lesão leva ao aparecimento de sintomas que prejudiquem o desempenho normal destas funções, origina-se então uma síndrome disexecutiva.

Com frequência, estes doentes reportam dificuldades em executar determinadas tarefas, como planear uma viagem, preparar uma refeição, gerir assuntos financeiros, tomar decisões no imediato ou persistir numa tarefa. Não raramente os familiares os descrevem como rígidos e inflexíveis, incapazes de se adaptar a situações novas ou a mudanças de ambiente. Podem manifestar impulsividade, pouca afetividade ou perda da capacidade de empatia. A perda de juízo crítico também pode ocorrer, a qual se manifesta por falta de discernimento para avaliar as consequências de um comportamento. Estes doentes podem tornar-se desadequados socialmente, negligenciar cuidados de higiente, usar linguagem imprópria ou comportar-se de forma desinibida.

A investigação científica tem mostrado que as funções executivas se deterioram durante o processo normal de envelhecimento, verificando-se uma diminuição da flexibilidade mental, da capacidade de abstração e da velocidade de raciocínio. Contudo, um declínio acentuado, que prejudique o normal funcionamento do dia-a-dia, pode ser indicador de doença.

As causas patológicas desta síndrome são muito diversas e incluem doenças neurológicas e psiquiátricas, causas traumáticas, infeciosas ou neoplásicas, doenças genéticas, entre outras. Podem ser reversíveis como no caso de infeções agudas ou relacionadas com tóxicos. Na depressão e ansiedade crónica é comum a presença de défices executivos, como dificuldades na concentração e na resolução de problemas complexos e lentificação do raciocínio. Nestes casos, os sintomas revertem habitualmente com a instituição de terapêutica antidepressiva. Outras causas psiquiátricas conhecidas incluem a Esquizofrenia, a Perturbação de hiperatividade e défice de atenção, a Perturbação Bipolar ou a Perturbação Obsessiva-compulsiva.

As demências degenerativas, como a demência fronto-temporal, constituem uma causa muito frequente. Nestes casos existe perda irreversível de tecido cerebral do lobo frontal, verificando-se um declínio lento e progressivo das funções executivas. Estes doentes manifestam com frequência alterações da personalidade, perturbações da linguagem e distúrbios comportamentais (apatia ou desinibição). As lesões vasculares que atinjam estas áreas, provocadas por exemplo pelo acidente vascular cerebral (AVC), podem levar também ao aparecimento desta síndrome.

O diagnóstico é estabelecido com base na avaliação clínica e auxiliado por exames analíticos, testes neuropsicológicos e de imagem cerebral. É imperativo excluir logo de início as causas potencialmente tratáveis.

O tratamento desta síndrome depende da doença subjacente. Em alguns casos de declínio progressivo pode ser aconselhável um programa de reabilitação cognitiva, que consiste na execução de exercícios direcionados para estimular determinadas áreas cerebrais, de forma a compensar os défices existentes. Dada a evolução crónica em grande parte dos casos, os doentes precisam de ser acompanhados regularmente por um especialista. O quadro clínico pode modificar-se com a progressão dos défices, e com frequência surgem concomitante sintomas emocionais e comportamentais, que devem ser devidamente avaliados e tratados.

Artigo de Opinião de Luísa Lagarto, psiquiatra e membro da direção da Associação Cérebro e Mente.

Categorias: Opinião, Saude

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