Voz do Passado – A imprensa lagoense antiga | 11

O Lagoense – Jornal literário, noticioso e independente 2 de Fevereiro de 1905 refere-se  ao fascículo nº 16 do “Album Açoreano”, obra em publicação à data e de propaganda para os Açores.  Vem o mesmo  ilustrado com algumas vistas d’esta vila da Lagoa, e o retrato do exmo. Sr. Clemente António de Vasconcelos, trazendo um artigo descritivo sobre a mesma vila, que não pudemos resistir à tentação de o transcrever, na certeza também que a sua leitura agradará aos nossos caros assinantes e particularmente àqueles que são nossos conterrâneos ou amantes desta terra.

Villa da Lagoa

Situada à beira mar, dominando uma bela e vasta baia, a Villa da Lagoa fica a menos de duas horas de viagem da cidade de Ponta Delgada, na costa sul da ilha de S. Miguel.

A Villa é bastante pitoresca, os seus terrenos férteis , de boa índole o seu povo, composta de camponeses e pescadores. Recebeu a villa o seu nome d’uma lagoa que teve, de água nativa, hoje transformada em terreno de cultura. Foi criada vila em 1522, por decreto de D. João III. O único edifício notável, pelo tamanho e antiguidade, é um convento de recolectos capuchos, erigido em 1641, sendo seus padroeiros os Condes da Ribeira Grande, convento onde actualmente se acham instaladas as repartições públicas do concelho.

A Villa da Lagoa tem duas fábricas importantes: a do álcool e a de cerâmica. Esta última é a única na ilha; de álcool existem três, sendo uma em Ponta delgada, a segunda na villa da Ribeira Grande e a da Lagoa. A industria de destilação do álcool é das mais importantes da ilha, pois que emprega ao seu serviço centenas de braços, e a sua matéria prima é a batata doce, que os terrenos micaelenses produzem com abundancia.

Os produtos da fábrica de cerâmica são apreciadíssimos, principalmente por estrangeiros, que fazem deles largo consumo. A louça desta fábrica é feita dum barro vermelho finíssimo, dos terrenos da vizinha ilha de Santa Maria. O fabrico das figuras é correctíssimo. Na sua maior parte são costumes da ilha, ou objectos em deliciosas miniaturas, para adornar bancas ou para brinquedos de crianças.

Na fábrica fazem-se louças de mais ordinário barro; mas a sua especialidade são esses objectos minúsculos, dum barro muito fino. Muitas casas comerciais da cidade a vendem, em grandes porções, aos touristes que visitam a terra, e que, d’entre as cousas que da ilha levam para recordação della, certamente que uma das melhores são esses curiosos costumes populares da indúsria lagoense, que faz honra aterra.

Assim, pois, a villa da Lagoa, apesar de ser a mais pequena em tamanho, é a primeira a concorrer, pelas suas indústrias, para o engrandecimento e progresso da terra de S. Miguel.

[O Lagoense – Jornal literário, noticioso e independente| Ano II | 2 de Fevereiro de 1905 | Número 55 | Director e Editor responsável, Guilherme Gouveia Fragoso e Secretário, Francisco d’Amaral Almeida | Redacção: Canto do Rosário]

Por: RoberTo MedeirOs
(Artigo publicado na edição impressa de outubro de 2017)

Categorias: Opinião, Voz do Passado

Deixe um comentário

Your e-mail address will not be published.
Required fields are marked*