Voz do Passado – A imprensa lagoense antiga | 10

Debruçamo-nos nesta publicação de Setembro sobre os problemas que envolveram os açorianos confrontados com a pretensão dos comerciantes e cultivadores de vinho, da cidade do Porto em exigir do governo que as fábricas de álcool dos Açores fechassem. O Lagoense, cujo director e editor foi Guilherme Gouveia Cardoso, com redacção no Canto do Rosário, tendo como secretário Francisco d’Amaral Almeida e com os serviços de administração na rua do Rosário, hoje, rua do Dr. José Pereira Botelho, dá conta dessa celeuma através do seu jornalista que assina sob o pseudónimo de “Amílcar”.

“A QUESTÃO DO ALCOOL”
A Havas telegrafou no dia 12 de Janeiro de 1905 para o Diário dos Açores que os portuenses apresentaram ao governo uma queixa contra o fabrico do álcool nos Açores. Sejam quais forem as razões alegadas não podem nem devem de modo algum ser atendidas.

Porque não poderão as fábricas açorianas produzir álcool? Porque isso vai vai prejudicar as fábricas que existem no Porto. Mas, porventura os donos das fábricas do Porto têm direito a mais privilégios do que os donos das fábricas açorianas? Não somos todos portugueses, e em Portugal não é a lei igual para todos?

Mas dirão, não são os donos das fábricas de álcool do Porto que apresentaram as queixas, são os comerciantes e os cultivadores da vinha. Pois não foram esses mesmos, que ainda não há muitos meses, no verão apresentaram queixa ao governo, pedindo o abatimento do imposto sobre o álcool estrangeiro, para que pudesse ser importado, pois que a sua falta estava causando grandes prejuízos ao comércio dos vinhos do Porto?

Então querem que se feche as fábricas de álcool dos Açores , que se reduzam os impostos sobre o álcool estrangeiro, que não haja álcool nacional para adubo dos vinhos, nem para os outros usos industriais, mas somente o estrangeiro, e por um preço que lhes convenha? Não é isto? Parece que sim.

Uma tal pretensão redunda n’isto: Os açorianos deixem de cultivar batata; cultivem só milho, para nos venderem pelo preço que nós o quisermos comprar; o estado deixe de auferir os lucros que recebe das fábricas açorianas; nós gozemos os benefícios de comprarmos álcool barato, de vendermos o nosso vinho pelo mais alto preço que pudermos; os outros que sofram, que morram de fome, pouco importa, com tanto que gozemos nós!

É uma lógica de funil, larga a mais não poder ser para os portuenses, e apertada, bem apertada, para os açorianos. E isto porquê? Porque eles são os portuenses , os habitantes , os habitantes da segunda cidade do reino, os que todo lo mandam e todo lo querem; e nós somos os açorianos, os ilhéus, os servos da gleba, que pouco mais valem que os pretos d’África.

Que cula temos nós que a cultura da vinha esteja dando prejuízos à lavoura do continente? Nenhuma.

A crise por que está passando a cultura da vinha é um resultado da grande ganância de querer obter mais com pouco dispêndio. A vinha foi durante alguns anos a cultura mais rendosa que havia no continente. Encheram todas as terras de bacelos, desse excesso de cultura veio o excesso da produção, e do excesso da produção, a depreciação e a barateza do produto. Era a consequência lógica da sua improvidência. Cultivassem também milho e trigo, e os outros géneros de que carecem.

Resumindo: o conselho que lhe damos é que em vez de apresentarem queixas contra o trabalho dos açorianos, arranquem as cepas, e semeiem as terras de quaisquer outros géneros que lhes pareçam mais remuneradores.
Assim é que nós temos feito.

Faltou-nos a laranja, e nós arrancamos as laranjeiras, e cultivamos as terras de batata. Se as terras nos não quiserem dar mais batata, como já parece não quererem dar, havemos tentar uma outra qualquer cultura, até acertar. Mas isto só e sempre à nossa custa, sem auxilio dos governos, sem a protecção de ninguém, e sem pedir o mal dos outros.

Amilcar

AGENDA ELEGANTE
Aniversários Janeiro 1905

Dia 19 – D. Claudina Isabel Machado, e António Ignácio d’Amaral.
Dia 21 – João Ignácio Amaral.
Dia 24 – João Carlos Tavares do Canto.

FESTA DE SANTO ANTÃO EM ÁGUA DE PAU

Amanhã festeja-se Santo Antão em Água de Pau, com missa de instrumental sob a regência do reverendo Ledo de Bettencourt.

Oxalá que os ânimos estejam por ali  mais bem dispostos, pois nos consta que na noite de 31 de dezembro alguns paroquianos procederam por forma pouco edificante para com os seus pastores, do que resultou ser ainda menos edificante o «cavaco» que do alto do púlpito lhes foi dirigido em agradecimento pelos insultados.

Esqueceu-lhes decerto aquela passagem do Padre Nosso: — »perdoai-nos Senhor as nossas dividas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores..»

Era-lhes mais bonito e de mais salutar exemplo.

 

OFICIAL
Camara Municipal de Lagoa
Sessão de 7 de Janeiro de 1905

(…) Foi presente uma participaçãode Francisco Cabral, dizendo que conduziu ao curral do concelho uma porca que, sem sua licença, encontrou no seu prédio, não tendo sido até hoje reclamada pelo respectivo dono.

 

[O Lagoense de 26 de Janeiro de 1905 – Número 54]

 

Por: RoberTo MedeirOs
(Artigo publicado na edição impressa de setembro de 2017)

Categorias: Opinião, Voz do Passado

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