Os de cá: José Francisco da Costa Pires e João Silvério Almeida Sousa

E chegamos, ao fim de 6 edições impressas do Diário da Lagoa – o que corresponde a 6 meses de relatos –, ao último artigo d’Os de cá.

Ao longo destes últimos 6 meses, uma vez por mês, demos a conhecer figuras marcantes da literatura lagoense: Manuel Augusto de Amaral, o poeta pauense; Guilhermina Maria Barbosa, a mestre da rima popular; Malvina Sousa, a emergente poetisa do concelho; o padre João José Tavares, importantíssimo historiador, sacerdote e um homem de causas; José Duarte Soares, o poeta popular natural de Santa Cruz e, por fim, Francisco Carreiro da Costa, que nos deixou um legado que nos deve orgulhar a todos nós, lagoenses de gema.

Terminamos, pois, hoje, como começámos: homenageando. Neste caso, homenageando dois poetas populares cá da terra: José Francisco da Costa Pires e João Silvério Almeida Sousa.

A poesia popular é a vertente dura e mais assídua da literatura lagoense, conseguimos constatar. Os poetas populares, com a sua aprendizagem que passa, muitas vezes, de geração em geração, em lições faladas e com muito treino, surgem como um eixo fundamental da literatura açoriana e lagoense, sendo que, sem a sua rima e o seu verso, perdia-se boa parte da genuinidade e autenticidade açorianas nessa mesma literatura: pois o povo açoriano fala, também, na sua linguagem que, como todas as outras, é poética, sem ser erudita. E há que saber versar – bem com simplicidade, tão simples e ímpar que é o povo açoriano em si, descendente direto da natureza.

Nascido na freguesia de Nossa Senhora do Rosário, José Francisco da Costa Pires desde cedo começou a dedicar-se à arte de versar, sabendo-se que o fez com o intuito de fugir à vida monótona e solitária a que estava sujeito.

Premiado, em 1963, pela Emissora Recreativa do Uíge, Carmona, Angola, ganhou impulso no mundo da poesia.

Em 1969 emigrou para os Estados Unidos, radicando-se em New Bedford, onde continuou a sua obra descrita como “procurando a todo o instante dar-nos uma ideia viva e verdadeira do povo açoriano e, muito particularmente, do seu meio ambiente”.

Com um estilo enquadrado “no verso rimado, o qual flui com notável facilidade”, a sua inspiração é, mais frequentemente, baseada em temas religiosos, festas populares, saudosismos, labutas do povo e na natureza, já tendo um livro publicado, que está disponível a todos os lagoenses interessados, intitulado “O Meu Rosário de Saudade”.

Para além de José Francisco da Costa Pires, também João Silvério Almeida Sousa cultiva a nobre arte de versar com a rima intrometida. Este nasceu na freguesia de Santa Cruz, no dia 7 de dezembro de 1952, sendo filho de António de Sousa Carroça e de Diamantina do Espírito Santo Almeida.

Com os estudos feitos – obtendo a quarta classe -, optou, mais tarde, já em idade adulta, por emigrar para o estrangeiro, permanecendo 14 anos nos Estados Unidos e 6 anos no Canadá.

Regressando à sua ilha natal, São Miguel, fixa-se na sua freguesia de origem, Santa Cruz, à qual dedicou os seus dois livros já publicados: “Elogios a Santa Cruz”, em 2011, e “Homenagem a António Augusto da Ponte Borges”, publicado em 2014, pela Junta de Freguesia de Santa Cruz.

Devemos, também a estes dois nossos poetas, prestar a mais profunda homenagem por manterem, a par do Diário da Lagoa, viva uma herança que nos é tão preciosa: a poesia do povo, a poesia popular (que é como quem diz: a voz do povo que fala!).

JTO
(Publicado na edição impressa de julho de 2017)

Categorias: Os de cá

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