Espaço saúde: Sobre a leptospirose – doênça do rato

Todos os anos são notificados casos de leptospirose nos Açores, a incidência desta doença na região é 10 vezes superior á registada no continente português.

Fatores como um clima húmido e chuvoso e uma importante atividade no setor da agropecuária parecem justificar esta incidência.

A leptospirose é uma doença infeciosa causada por uma espiroqueta, a Leptospira que pode afetar o homem e outros animais. Os reservatórios naturais na região, são principalmente os roedores, ratos e ratazanas, podendo também ser transmitida por outros mamíferos silváticos ou domésticos.

O Homem é infetado, em geral, após exposição acidental a um ambiente contaminado, com urina, sangue e tecido de animais infetados e/ou por contacto direto com águas e solos contaminados.

A leptospira pode entrar no organismo através de feridas, mucosas, conjuntiva e mais raramente, através da ingestão de alimentos, aerossóis e contagio pessoa a pessoa.

Após contagio os sintomas podem aparecer entre 2 a 30 dias, pois tem um período de incubação médio de 10 dias. A infeção em humanos varia muito em gravidade desde formas assintomáticas a formas graves e mesmo fatais.

Os sintomas são febre alta de inicio súbito, mal-estar generalizado, calafrios, dor de cabeça constante e acentuada, cansaço, dores musculares intensas, dor abdominal, náuseas, vómitos, diarreia. Nas formas mais graves geralmente aparece icterícia (coloração amarelada da pele e dos olhos), o doente pode apresentar também hemorragias, meningite, insuficiência renal, hepática e respiratória, que podem levar à morte.

O diagnóstico de leptospirose é feito através da história de exposição ao agente infecioso, por razões profissionais, tais como agricultores, jardineiros, trabalhadores da construção civil e do saneamento básico ou de lazer, como prática de atividades recreativas em lagoas ou outros locais com águas e solos contaminados. O médico pede também exames laboratoriais de forma a confirmar a presença de leptospiras no doente, estes exames são fundamentais pois o quadro clinico da leptospirose é comum ao de muitas outras doenças como a gripe.

O tratamento depende da gravidade da doença e pode passar por hidratação, antibioterapia até internamento em cuidados intensivos. Atenção que medicamentos contendo ácido acetilsalicílico e anti-inflamatórios não esteroides não devem ser administrados ao doente.

A leptospirose é um desafio para a Saúde Pública e para o Governo dos Açores que têm desenvolvido campanhas de sensibilização e ações de formação sobre a doença e medidas de controlo da mesma, contudo não posso deixar de apelar á consciência ambiental e ao uso de medidas de proteção individual da população açoriana.

Relembro a importância de se tomarem medidas de forma a controlar a população de roedores através de anti-ratização e de desratização, correta armazenagem de alimentos, correto acondicionamento de lixo e entulho que possam servir de alimento e abrigo a roedores, limpeza adequada de corrais e afins, vacinação de animais contra a leptospira.

Como medidas individuais de proteção aconselho o uso de luvas no manuseamento de rações e utensílios agrícolas, bem como de botas, evitar mergulhar as mãos em águas com alta probabilidade de estarem contaminadas, não beber água que não seja da rede pública ou comercializada, evitar beber por latas, lavar sempre as frutas e legumes antes de consumir e lavar frequentemente as mãos.

A prevenção é a medida mais eficaz no combate a esta infeção, não devem, por isso, serem negligenciadas medidas de proteção individual, nem medidas que protejam o ambiente de situações que pré disponham a instalação e proliferação de roedores.

Dr. João Martins de Sousa
Delegado de Saúde de Lagoa

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