“Sempre que tinha algum sucesso, lembrava-me da minha terra”

Clemente Ventura Santa Clara_jopgador natural lagoa Açores_Jornal Diario da Lagoa-ed-fev2017_foto_(c) Henrique Barreira

Jogador de futebol desde os 9 anos, Paulo Clemente Ventura é um lagoense de renome no mundo desportivo. Oriundo da Freguesia de Santa Cruz, na Cidade de Lagoa, ganhou paixão pelo futebol no Clube Operário Desportivo, tendo passado por diversos clubes de futebol em Portugal Continental, nomeadamente o Louletano, Gondomar, Chaves, Oliveirense, Arouca, Farense, sendo que atualmente joga nos Açores, no Clube Desportivo Santa Clara.

Na sua carreira profissional, tem orgulho de salientar que, apesar de nunca ter jogado na Primeira Liga de Futebol, já marcou 155 golos, sendo que 41 deles foram ao serviço do Clube Operário Desportivo em três épocas, 21 no Louletano, 2 no Gondomar, 33 no Chaves, 12 no Oliveirense, 7 pelo Arouca, 2 no Farense e no Santa Clara já conta atualmente com 37 golos marcados.

Segundo Clemente Ventura, inicialmente não foi por profissão que começou a jogar futebol, mas sim por prazer, porque tinha uma verdadeira paixão por aquilo que fazia e principalmente detestava perder.

“Na minha base, na minha essência como jogador, os princípios ensinados pelo Operário foram importantes para mim, porque no clube da Lagoa, sempre nos disseram que tínhamos de vestir o fato-de-macaco, éramos Operário, tínhamos de trabalhar muito. Costumo dizer na brincadeira com os meus colegas que só visto o smoking na passagem de ano, fora isso visto o fato-de-macaco, porque tenho de trabalhar, tenho de ser mais forte do que os outros”, recorda o jogador.

Orgulhoso de ser lagoense, Clemente Ventura sente que o Operário é o único clube dos Açores que dá oportunidade aos jovens.

“A mim deu-me uma oportunidade. A mim e a muitos que têm saído da Lagoa. No futebol profissional, o Santa Clara não dá. Infelizmente, os jogadores chegam lá e olham só para o estatuto do jogador”, explica o atual jogador do Santa Clara.

Por outro lado, Clemente sente que até agora teve uma carreira “engraçada”, dentro daquilo que é o mundo do futebol, que na realidade não é uma vida fácil.

Apesar de ter conseguido passar da 3º divisão no Operário, para a 2º B no Chaves, e de ter subido à Primeira Liga no Arouca, sem esquecer que jogou uma final da Taça de Portugal onde fez um golo, o sentimento de ingratidão fica sempre marcado pelo facto de nunca ter jogado na Primeira Liga.

“Sinto orgulho. Agora, eu acho que o futebol, por vezes, é ingrato. E eu acho que comigo foi ingrato. Já tenho 155 golos na minha carreira e nunca joguei na Primeira Liga”, afirma Clemente Ventura.

Essa “injustiça”, de certa forma tem uma explicação, pois o jogador nunca quis ter um empresário, sendo que “hoje em dia, infelizmente, quem manda no futebol são os empresários”.

A palavra “orgulho” é recorrente no diálogo de Clemente, principalmente quando se refere à Cidade de Lagoa. “Eu sinto muito orgulho em ser lagoense. E consegui sair daqui e mostrar a todos os jovens que é possível”, salienta nesta entrevista ao Jornal Diário da Lagoa.

“Só aqui no Operário e no União Desportiva Oliveirense é que senti a mística do que é um clube de futebol. O Santa Clara está agora a tentar ganhar essa mística. No Operário chegávamos aqui e havia um espírito de união, o pessoal era muito amigo, muito unido, conseguíamos superar, mesmo contra equipas mais fortes. É raro que um jogador de qualidade não vingue no Operário, porque é bem tratado”, explica orgulhosamente o lagoense.

Segundo Clemente Ventura, é essencial saber agarrar as oportunidades e tirar da mente das pessoas a ideia de que um jogador lagoense não consegue vingar na equipa sénior.

Outro clube marcante a nível pessoal e profissional para Clemente, foi o Desportivo de Chaves, onde se sentiu verdadeiramente jogador, foi idolatrado e as pessoas ainda hoje acompanham a sua carreira.

“Apanhei um grande treinador na altura, o Leonardo Jardim, que foi para o Sporting e hoje está no Mónaco. Foi alguém que me ajudou muito a evoluir na minha carreira”, explica.

Clemente Ventura Santa Clara_jopgador natural lagoa Açores_Jornal Diario da Lagoa-ed-fev2017_foto_(c) Henrique Barreira01

Depois de ter saído do Farense, foi jogar para o Santa Clara, um clube que aprendeu a gostar e que o tem tratado muito bem. Em dois anos e três meses já é o melhor marcador da história do Santa Clara.

Voltar aos Açores e jogar na sua ilha, é sempre bom, mas também traz um peso adicional, pois as pessoas são muito mais exigentes com os jogadores da casa, que conhecem bem, do que com os de fora.
Por outro lado, Clemente Ventura, explica que, atualmente, o mal do futebol português é que toda a gente fala de arbitragens, de polémicas e ninguém fala do que é verdadeiramente importante: o futebol com os seus jogadores, os golos, os passes, os dribles…

“Vejo muita gente a falar de arbitragem e de corrupção, que é aquilo que não interessa ao espetáculo”, frisou o desportista.

Com 33 anos, já não lhe resta muitos anos para jogar futebol, apesar de se sentir ainda com muita força e garra. No futuro, quando pendurar as chuteiras, irá tirar o 12º ano escolar e tentar ficar ligado ao futebol.

Para os jovens jogadores de futebol, Clemente explica que o segredo é trabalhar muito, ter mais vontade e sobretudo acreditar em si, sem que ninguém nos consiga deitar abaixo. E foram essas dicas que seguiu ao longo da sua carreira profissional de futebol.

“Faria tudo igual, o percurso exatamente o mesmo, não mudava nada. Conheci gente fantástica, bons colegas, bons treinadores, tive sorte que as pessoas sempre tinham um carinho especial por mim, tive muita gente que me apoiava e isso é que me deixa feliz. Em todos os clubes de onde saí, deixei a minha marca, não só pelos golos que marquei, mas também pela pessoa que fui”, respondeu Clemente Ventura ao nosso jornal.

Finalmente, deixou uma mensagem de agradecimento a todos os lagoenses pelo orgulho que sempre depositaram nele, pelas mensagens de carinho e salienta que nunca se esqueceu da sua terra. “Todas as vezes, sempre que tinha algum sucesso, lembrava-me da minha terra”, frisa Clemente Ventura.

DL/AS/ fotos (c) Henrique Barreira

Categorias: Desporto

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