Os de cá: Manuel Augusto de Amaral

os-de-ca_julio-tavares-oliveira_manuel-augusto-amaral_jan17_jornal-diario-da-lagoaFixem esta data: 29 de Agosto de 1862. Nasce, na Vila de Água de Pau, um dos maiores poetas que os Açores já tiveram o privilégio de acolher. Nasce Manuel Augusto de Amaral, filho de Félix de Amaral e de D. Ana Maria Matos de Amaral.

Formado no Seminário de Angra do Heroísmo, onde estudou preparatórios, regressa mais tarde a São Miguel, fixando residência em Ponta Delgada. Durante a sua vida, dedicou-se ao professorado, mas não só: os versos sempre ocuparam um lugar muito especial na sua vida inglória que nem sempre teve, para os outros, o valor que lhe era, inegavelmente, merecido – e o poeta canta, inclusive, essa desgraça, dirigindo-se à vida num tom de profunda desilusão e de desânimo constante.

Com um talento inato para a rima, escreveu numerosas e variadas cantigas e uma diversidade alargada sonetos, notando-se um rigor poético de excelência e uma estética perfeccionista no corpo de cada poema. Ao longo da sua poesia, há a celebração da poesia no seu estado mais puro, sendo que os poemas de Manuel Augusto de Amaral tocam bem no fundo de quem os aprende a degustar – e não é difícil gostar deles, até pela linguagem simples, didática e impregnada com uma musicalidade especial. Algumas das suas cantigas, presentes nos seus cinco volumes de cantigas e no seu Rosário de Cantigas, servem, precisamente, para serem cantadas pelos populares da sua terra e não só – por toda a gente que partilha da sua boa alma açoriana e lagoense!

Elogiado por vários poetas, este nosso cidadão pauense teve a honra de lhe serem dirigidas críticas elogiosas à sua obra, provenientes de algumas das maiores figuras da literatura nacional: Antero de Quental (“Antero manifestou interesse e prazer em conhecer pessoalmente Manuel Augusto de Amaral, e de que este, em sinal de reconhecimento, soube sempre votar-lhe grande e sincero culto”), Júlio Dantas (“há quadras admiráveis pelo conceito, pela simplicidade da expressão e pelo perfeito sentimento do lirismo popular”), Guerra Junqueiro (“ tem quadras admiráveis que penetram na alma e ficam na memória”) e Teixeira de Pascoaes (“há versos que o povo bem podia cantar como os seus, e outros que não ficariam mal na bagagem de muito poeta em evidência”).

Nutrindo um amor inato pela sua terra de origem, Água de Pau, este nosso poeta açoriano pode ser considerado como um dos melhores do seu tempo. Com vinte e dois livros publicados, acrescidos de mais dois inéditos, Manuel Augusto de Amaral merece todos os nossos elogios, sendo, indiscutivelmente, um orgulho poderoso para todos os pauseses e a prova viva de que, na Lagoa, se faz história de uma maneira interessante: através do verso e da estrofe, através da arma que é a palavra. E porque Água de Pau andou na boca dos nomes maiores da literatura portuguesa, por culpa do seu grande poeta – sendo que o próprio Antero chegou a dirigir-se, de propósito, a esta freguesia com o propósito de visitar Manuel Amaral -, é de toda a justiça que lhe seja prestada esta homenagem.

É correto dizer-se que, numa época em que grande parte da população era iletrada, existiu uma pessoa, um verdadeiro intelectual, um mestre da rima e das letras, que manobrou palavras de uma maneira única, direcionando-as diretamente ao coração de todos nós, açorianos e portugueses em geral.

Em Água de Pau nasceu, em 1862, um dos maiores poetas de sempre. E assim aconteceu contra todas as probabilidades, embora esse facto não tenha resistido da melhor forma à erosão do tempo – assim serve este artigo essencialmente para combater a ideia de algum atraso cultural presente na Lagoa dos tempos passados, provando o mesmo a existência de figuras que, pela sua excelência genial, sobressaíram.
Manuel Augusto de Amaral faleceu no dia 25 de Dezembro de 1942.

JTO
(Publicado na edição impressa de janeiro de 2017)

Categorias: Cultura, Os de cá

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