Opinião: O dominó europeu

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A votação foi massiva e suficientemente clara para eliminar dúvidas. As tradições democráticas britânicas não deixam margem para pensarmos nos mesmos arranjos europeus que permitiram repetidamente ignorar referendos nacionais no passado.

O Reino Unido entrou numa complexa zona de turbulência: são os líderes secessionistas da Irlanda do Norte e da Escócia que declaram a urgência de um referendo sobre o seu Brexit; é a praça financeira de Londres, única atividade económica dinâmica no país que cai com estrondo; são os milhões de emigrantes que receiam pelo seu futuro; é a sobrevivência do país tal como existe que está em causa.
A Europa segue-lhe os passos! Contra a absurda postura euro-imperial que via na saída do Reino Unido a luz verde para o aprofundamento da construção europeia, o debate está lançado, e o debate, obviamente, não é sobre nenhum aprofundamento mas sobre a eventualidade de a França, os Países Baixos e a Itália seguirem os passos britânicos.

Jo Cox, aquela mulher e mãe que foi assassinada por dizer o que pensava, aquela deputada que pensava na humanidade antes de tudo o resto, aquela prova de que havia ainda paixão, amor, sentimento e generosidade no nosso sistema político viu a sua voz esmagada por um turbilhão que pressagia o colapso moral da nossa construção civilizacional.

A Europa olha para a guerra que devasta o seu flanco Sul como se fosse uma Suíça para quem a segunda guerra mundial foi “uma crise de refugiados”. É uma cegueira lamentável! A Suíça manteve-se neutral na segunda guerra por uma simples razão: tinha um dos maiores esforços militares per-capita do seu tempo. Hitler não invadiu Portugal, porque não teve tempo para chegar a este canto periférico (e não por nenhuma pretensa esperteza de Salazar) mas não invadiu a Suíça porque percebeu que os custos iriam ser fatalmente superiores aos proveitos.

Esta Europa que temos não quer refugiados mas tão pouco tem a coragem para enfrentar a besta que os produz. Esta Europa que temos quer os proveitos de um sistema económico sem fronteiras mas não quer pagar os seus custos. Esta Europa que temos viu a sua economia devastada pelos plenos poderes que deu aos seus banqueiros, mas crê que se vai recompor dando-lhes tudo o que eles querem, pondo os PIGS na ordem e os não-europeus na rua. Esta Europa que temos deixa cair assassinados os seus políticos com coração e mantém no poder uma casta incapaz de burocratas.

Talvez com um melhor sistema de informação que outros, a Rússia foi a primeira a literalmente fazer saltar os foguetes da sua vitória no referendo com um tremendo ataque de artilharia pesada na noite de dia 22 na preparação do ataque a Berdyansk, no mar Negro, assalto que eu no local disse no final do ano passado que estava a ser preparado.

Mais do que outros aprendizes de ditador como Erdogan, a teocracia iraniana – à sombra da aliança contranatura que tem com a Rússia e a China – sai vitoriosa deste referendo, que acertadamente vê como um primeiro passo para a implosão da Europa, condição necessária ao prosseguimento da sua expansão.

A burocracia europeia já estabeleceu a sua agenda: vai-se entreter até 2019 a delinear os termos do divórcio britânico e das multas a passar aos meridionais. Como sempre, vai ser arrasada pelos acontecimentos; o eixo anti-europeu, anti-democrático e anti-liberal prepara-se para avançar para o Golfo Pérsico e para as costas do Mediterrâneo por um lado; ao longo do mar Negro e seguramente no Báltico por outro. O sistema bancário e financeiro – milagrosamente a flutuar graças à inteligência de Mario Draghi – ameaça não sobreviver à loucura instalada.

Nos Estados Unidos, balança-se entre os perigos da demagogia jacksoniana e da cegueira do establishment. Em qualquer caso, parece-me ser a zona de onde será mais provável ver sinais positivos.

Paulo Casaca
Bruxelas, 2016-06-24

Categorias: Opinião

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