Opinião: Síncope na infância

Artigo de opinião de Sérgio Laranjo, Cardiologista Pediátrico do Hospital Lusíadas Lisboa

A síncope é uma perda temporária de consciência, com inevitável perda do tónus postural, devido a uma diminuição transitória da irrigação cerebral. Caracteriza-se por um início súbito, curta duração e recuperação espontânea e total. A definição de síncope exclui outros estados de alteração da consciência como epilepsia, coma, entre outros.

É uma entidade muito prevalente na idade pediátrica, pensando-se que aproximadamente 15 a 25 por cento das crianças sofram de pelo menos um episódio de síncope até à idade adulta. A idade típica de início dos sintomas é durante a adolescência, sendo mais comum no sexo feminino.

A síncope pode ser secundária a doenças cardíacas (por exemplo uma arritmia ou malformação cardíaca presente no nascimento); mas, mais frequentemente (mais de 80 por cento dos casos) é devida a uma desregulação do sistema interno de controlo da pressão arterial e da frequência cardíaca. Neste tipo de síncope, dita reflexa ou vasovagal, o prognóstico é em geral benigno e os episódios em norma esporádicos, podendo contudo condicionar graves transtornos para a vida do dia-a-dia e ansiedade ao doente e respetivos familiares. O inverso se verifica no grupo restrito de doentes com síncope de causa cardíaca, nos quais este sintoma pode predizer um evento fatal súbito. Como resultado deste risco, a síncope é uma causa frequente de idas às urgências e consultas de especialidade.

Na maioria dos casos, a síncope típica dos adolescentes é habitualmente precipitada por stresse emocional (medo, dor, colheita de sangue para análises) ou na sequência de alterações posicionais (levantar-se, posição de pé prolongada em ambientes quentes). Mais raramente pode ser despoletada por situações específicas como a micção, defecação, tosse, espirrar, rir, tocar instrumentos de sopro ou mesmo pentear o cabelo. É tipicamente antecedida de sinais e sintomas característicos como palidez cutânea, hipersudorese, sensação de calor ou de frio, visão turva, desconforto abdominal, náusea e tontura e resulta de uma queda súbita da pressão arterial e/ou da frequência cardíaca, com diminuição consequente da perfusão sanguínea cerebral. A perda de força muscular provoca uma queda descrita como “desfalecer” ou “deslizar para o chão”. O doente recorda-se frequentemente do início do episódio. A duração da perda de consciência é geralmente curta (20 a 30 segundos, no máximo 5 minutos) e a recuperação de consciência é completa.

Os doentes com episódios recorrentes de síncope ou em que os mesmo ocorram durante o exercício ou sem as características em cima referidas devem ser avaliados pelo seu médico assistente/pediatra e referenciados para avaliação por médicos especialistas nesta área, incluindo avaliação por Cardiologia Pediátrica. Esta consulta incluirá a avaliação clínica do doente, realização de eletrocardiograma e ecocardiograma e, em doentes selecionados, realização de teste de inclinação em mesa basculante (teste de tilt), o qual é um exame de diagnóstico utilizado na determinação da causa dos desmaios e que permite a reprodução, em meio hospitalar, das síncopes reflexas. O teste não tem riscos para o doente.

Geralmente, a síncope tem um prognóstico benigno. A abordagem destes doentes passa pela sua educação e aconselhamento, devendo ser instruídos para evitar situações que habitualmente provoquem desmaio e aconselhados a usar manobras de contrapressão e de modificação da postura (sentar-se, colocar-se de cócoras ou mesmo deitado) com vista a interromper o episódio. A ingestão de pelo menos 1,5L de água e o aumento do sal na dieta também mostrou ser eficaz.

Doentes com síncope ou pré-síncope reflexa recorrente ou incapacitante, refratárias a estas medidas podem beneficiar de um programa de treino de tolerância ortostática (tilt training). O programa de treino ortostático possui duas componentes que decorrem em simultâneo: a primeira, realizada em meio hospitalar, é constituída por nove sessões, de periodicidade trissemanal, sempre no período da manhã, após um pequeno-almoço ligeiro. Os doentes são colocados numa mesa basculante e submetidos ao teste de tilt com registo contínuo das funções vitais relevantes. As sessões hospitalares são complementadas com treino diário no domicílio.

O treino de ortostatismo é uma opção terapêutica eficaz, não invasiva e segura, com benefícios a longo prazo, permitindo não só uma melhor tolerância ao ortostatismo, diminuição da frequência dos episódios de desmaio e uma melhoria significativa na qualidade de vida dos doentes, desde que motivados a completar o programa de treino.

Artigo de opinião de Sérgio Laranjo, Cardiologista Pediátrico do Hospital Lusíadas Lisboa

Categorias: Opinião

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