Opinião: Liberalizar e qualificar

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Primeiro, os factos: com a liberalização do espaço aéreo açoriano e o respetivo aproveitamento da oportunidade criada pelas operadoras de baixo custo, aumentou em praticamente cem por cento a oferta de lugares nas ligações para o arquipélago, diversificando a oferta do ponto de vista horário, e permitindo a milhares de forasteiros uma outrora muito difícil viagem de férias aos Açores.

Outro facto: com o maior fluxo turístico na região (e não apenas em São Miguel, embora a “gateway” de Ponta Delgada tenha, evidentemente, sido a mais beneficiada com o novo paradigma de transporte aéreo), a economia relacionada diretamente com o turismo e respetivos agentes sofreu uma brusca alavancagem, gerando maiores e mais consistentes receitas, e atenuando um dos principais problemas da operação turística açoriana, a sazonalidade.

E ainda um facto adicional, e decorrente dos dois anteriormente sublinhados: a geração de emprego (ainda que, neste particular, com reforço óbvio nos períodos altos) atenua um dos cutelos mais fortes e distintivos da região, e permite que um dos fatores fundamentais do desenvolvimento económico esteja presente neste momento de relançamento do arquipélago para o mundo. Isto é, que o emprego auxilie, também, nesta manobra de ressurreição.

Três factos irrefutáveis e que, de “per si”, são suficientes para motivar sorrisos de esperança na capacidade de tornar o turismo, efetivamente, num elemento distintivo e qualificativo dos Açores.
Escrevi “distintivo e qualificativo”? Pois. Aqui sim, começam os problemas e não abundam, numa primeira e rápida análise, as soluções.

Em plataformas habituadas aos grandes fluxos turísticos, e com frequência quase permanente ao longo dos diversos meses do ano (pela capacidade de criação de fatires de atração independentes das condições climatéricas ideais e dominantes), a qualificação dos recursos humanos é um elemento essencial. É, mesmo, o elemento que distingue, e que pode influenciar o momento da decisão, por parte do consumidor. Um serviço de qualidade, com profissionais dedicados e vocacionados para a área, motiva regressos e promoção “boca a boca” que, as mais das vezes, se revela tanto ou mais eficaz que a promoção tradicional nos suportes mediáticos.

E os Açores, que não podem vender “clima”, devendo diversificar a sua oferta turística para outras variáveis, têm, também, de se preocupar com este “pormenor”: é impensável que nos restaurantes e superfícies comerciais das principais zonas urbanas não se fale outra língua que não o português nativo. É inadmissível que, depois das nove da noite, seja quase necessária recorrer à lupa para perceber quem pode servir uma refeição de qualidade sem olhares ou suspiros reveladores de impaciência. É inqualificável que, queixando-se os comerciantes tradicionais do centro da principal cidade açoriana da “concorrência desleal” das grandes superfícies, não definam entre si uma verdadeira política de desenvolvimento e ressurgimento da sua atividade, criando pontes com os novos clientes. Nas tardes de sábado e durante os dias de domingo, a confrangedora silhueta comercial de Ponta Delgada (com todo o comércio tradicional encerrado) diz bem da inércia do setor e da sua incapacidade de adaptação aos novos estímulos, necessidades e desafios. É de ficar de “olhos em bico”, sobretudo porque, efetivamente, as lojas dirigidas por orientais são, mesmo, as únicas disponíveis.

A Lagoa, como concelho e cidade, surge, pela proximidade à capital micaelense, numa rota interessante e competitiva. E sobretudo pela sua verdadeira mais-valia: a gastronomia. Muitas, variadas e sempre apetecíveis soluções estão disponíveis. Saibam os seus responsáveis receber com um sorriso, atender com simpatia e vender com qualidade. Sendo assim, neste capítulo, a Lagoa convida. E com vida, o visitante regressa.

Por: Rui Almeida

Categorias: Opinião

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