Opinião: Acolher a baixo custo

Açores-Jornal-Diario-Lagoa-Artigo-Cronica-Opinião-Pde-Nuno-Maiato

Chegaram numa lambreta branca alugada na cidade. Entraram na Igreja Matriz, ela ajoelhou-se diante do sacrário enquanto ele apenas comtemplava a beleza e as especificidades do templo. Quando me aproximei deles, saudei-os primeiro com um sorriso e depois com um “Welcome” num inglês atrapalhado, mas suficiente para continuarmos uma conversa agradável e de circunstância. Ao saírem da Igreja, ela sentou-se no muro da igreja, descalçou-se e apreciou a baía da Lagoa de Baixo, ele e eu continuamos a conversar sobre tudo e nada. Aproveitei o momento em que ele sacou da carteira um cigarro e fiz o mesmo. Enquanto fumávamos disse-me que estavam encantados com São Miguel. Despedimo-nos e seguiram viagem na sua lambreta para outra paragem.

Desde que começaram as viagens aéreas a baixo custo tenho vivido momentos semelhantes a este com muito mais frequência. Atrevo-me a dizer que o número de visitantes da Igreja Matriz triplicou. Todos os visitantes sedentes de arte e cultura, muitos com sede de Deus, alguns com vivências de fé diversas e interessantes e que sempre que surge a oportunidade partilham comigo.

Não sei prever o futuro, mas tenho a impressão que existe antes e depois das “Low Cost” no turismo nos Açores o que me faz refletir, essencialmente em duas coisas: temos que saber acolher estes forasteiros e apostar urgentemente numa pastoral de Turismo acertada e concertada.

Acolher quem nos visita, não uma tarefa apenas dos profissionais da área do Turismo, mas de nós todos. Todos e cada um á sua medida, temos que acolher com um sorriso, com uma simples informação os visitantes destas nossas ilhas. Deus deu-nos a oportunidade de viver num Paraíso, saibamos agradece-Lo acolhendo bem quem, por umas horas ou dias, dele usufruem.

Não é preciso muito, basta querer. Aprendi com o meu Pai a não ter medo de acolher forasteiros na simplicidade do seu saber. Após o exame da quarta classe ele frequentou uma explicação de inglês, durante poucos meses, e na sua vida profissional quando era necessário falar “americano”, ele potenciava os seus poucos conhecimentos linguísticos sem medo e, se necessário fosse recorria á linguagem universal dos gestos. O importante era acolher bem. É certo nesta sua atitude ele também tinha uma motivação comercial, mas conheço muitas outas pessoas o fazem igual ou melhor do que ele apenas por sentirem o gozo e o dever de bem acolher.

Neste ano pastoral, a nossa diocese fez uma reflexão sobre as estruturas e meios de evangelização da Igreja, reconhecendo que é preciso rever tudo para que possamos sair em missão, para ser mais e melhor Igreja de Jesus. Parece-me que toda esta reflexão ficará em águas de Bacalhau, de molho, porque se acontecer como nos últimos anos, tudo é refletido superficialmente e sem decisões assertivas, mas isto são contas de outro rosário.

A Igreja soube ser pioneira em muitas coisas ao longo dos seculos, procurando dar respostas às necessidades das pessoas. Eis um novo e necessário campo de ação. Alguma coisa tem sido feita, isoladamente e com muito boa vontade, mas falta arrojar, potenciar os nossos recursos humanos, materiais e espirituais porque “a Deus interessa todo o Homem e o Homem todo” como disse o Papa Paulo VI.

Por aqui, vamos continuar a promover a cultura do Acolhimento e a organizarmo-nos para que ainda este ano possamos apresentar um projeto ambicioso no âmbito da Pastoral do Turismo, com muitos erros e imperfeições, mas com a mesma boa vontade de muitos açorianos.

Pe. Nuno Maiato

Categorias: Opinião

Deixe o seu comentário

Your e-mail address will not be published.
Required fields are marked*