Opinião: A outra troica

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Com taxas de juro negativas, o petróleo (e a generalidade das matérias primas) em mínimos históricos e o Euro em baixa, a economia portuguesa – globalmente a mais endividada da Europa e uma das mais se não a mais dependente da importação de hidrocarbonetos e matérias-primas agrícolas – recebeu da parte desta “troica de circunstâncias” um brutal impulso expansivo.

A juntar a esta extraordinária situação tivemos o prematuro começo da campanha eleitoral com um programa de aumentos, prémios e promoções na função pública – que começou com os juízes, continuou com os funcionários fiscais, militares e polícias e se alarga a quase toda a gente; até os exilados económicos intimados a sair da “zona de conforto” são agora alvo de imensos louvores e apelos pungentes ao regresso.

A pequena nota dissonante – as palavras ditas e semi-desmentidas da responsável pelas finanças sobre cortes nas reformas e que estão em qualquer caso em consonância com os números orçamentais apresentados às instituições europeias – terá porventura mais a ver com a campanha pessoal da nossa Ministra das Finanças, que viu há dois meses a hipótese de ascender à liderança do Eurogrupo, do que com as eleições portuguesas.

As declarações críticas dos responsáveis da outra troica à ausência de reformas estruturais e ao despesismo da função pública são agora respondidas pelos responsáveis governativos portugueses em termos que há dois anos atrás só se esperaria que fossem usados por parte de dirigentes do Bloco de Esquerda.

A troica – que contra as erradas proclamações governativas, continua a supervisionar a economia portuguesa – vê as suas palavras desconsideradas exatamente porque a conjuntura é de tal forma favorável que os investidores internacionais estão disponíveis até a pagar para que Portugal receba o seu dinheiro.

Por óbvios motivos de concorrência eleitoral, a completa inversão do discurso governativo levou a oposição a fazer subir a aposta, cuidando de prometer sempre mais e melhor, aumentando assim ainda mais o sentimento generalizado de euforia.

A opinião pública portuguesa tem sistematicamente apresentado uma preocupante ciclotimia, com períodos de negro desespero a alternar com períodos de contagiante entusiasmo, deixando pouco espaço a análises equilibradas, desapaixonadas e racionais.

Numa acertada análise publicada em 2013 no seu relatório anual, o Banco de Portugal fez uma comparação entre o programa da troica de 2011 com os anteriores do FMI de 1977 e 1983. Fundamentalmente, o relatório mostrou que as trajetórias das contas externas nos três casos foi praticamente idêntica, mas com custos económicos e sociais muito mais elevados em 2011.

Para além disso, o relatório chamou a atenção para o facto de o desequilíbrio económico atingido em 2011 ser incomensuravelmente maior do de 1977 ou 1983 e que portanto irá requerer medidas corretivas por um período muito mais largo de tempo.

A presente conjuntura não altera rigorosamente nada à validade estrutural dessa análise, e penso que vamos pagar caro a persistente ciclotimia em que continuamos envolvidos.

Sete anos de pois de iniciada a crise, alguns fatores que mais contribuíram para ela estão finalmente a ser respondidos. Na Alemanha entrou em vigor este ano um salário mínimo e sucedem-se movimentos sociais que obrigam a aumentos de salários generalizados. O BCE colocou finalmente em marcha um programa de injeção de milhares de milhões na economia, fazendo assim com que a despesa pública não contabilizada como tal (a do emissor público de moeda) substitua a despesa pública oficial, e que se encontra absurdamente em baixa na Alemanha e em outros países com grandes excedentes económicos. A crise grega, paradoxalmente, mantém o Euro em queda e tornou-se assim no principal motor da competitividade da economia europeia

Tudo isto é no entanto conjuntural. Contrariamente à outra troica, a atual troica conjuntural, que trouxe algum abrandamento nos problemas com que nos confrontamos, pode desaparecer em qualquer altura.

Seria bom que nos lembrássemos disso e que pensássemos em reformas institucionais, políticas, sociais e económicas que não existiram nos quatro anos passados mas que são também por isso cada vez mais urgentes.

Bruxelas, 2015-06-03
Paulo Casaca

Categorias: Opinião

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