Opinião: Breves apontamentos da exposição “Antero – Para além dos sonetos”

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A Câmara Municipal de Lagoa, em parceria com a Escola Secundária, inaugurou a 18 de abril a VII edição da Feira do Livro, um evento que tem vindo a assumir uma importância crescente na área da educação e cultura do concelho e que, anualmente, tem uma temática: cinema, fotografia, literatura de viagens, são apenas alguns exemplos de temas de anos anteriores.

Mas há nomes que merecem estar sozinhos. Há nomes que são tão ricos, completos, tão cheios de tanto, que não precisam de se acompanhar de mais nada. Antero é um deles.

Porquê Antero? Porque coube-nos a glória desta ilha ter sido o seu berço[1]. Esta foi a sua ilha-mãe, a pátria “onde tudo nos ama, tudo nos ri”, conforme escreveu o poeta[2]. Esta mesma pátria que levou cerca de 95 anos a concluir o monumento em sua homenagem, na sua cidade natal.

“Quando Antero de Quental disparou sobre a sua vida, todas as pombas ficaram no chão…” escreveu Emanuel Jorge Botelho, numa das suas crónicas. Em linhas mais à frente relata o seguinte episódio:

“Em ano que já cá não está, ia eu a rasgar a miserável tristeza que, há muito, sitia o Campo de São Francisco, quando deparei com um casal em frente do banco de Antero.

Ela vinha de máquina fotográfica ao peito e ele, num rodopio imbecil, sentou-se, abriu os braços, e disse em voz alta:

«- Tira-me uma fotografia! Foi aqui que o gajo se suicidou!»

Quando a máquina fotográfica disparou, todas as pombas, feridas de vergonha, levantaram voo…”[3].

Urgia dar a conhecer a outras gerações este “astro fulgurante das letras e do pensamento”, como referiu Manuel Ferreira, este insular responsável por uma das maiores revoluções literárias na história lusitana, pai de uma nova forma de poesia que Fernando Pessoa considerou não ser discípula de coisa alguma. Este homem enorme que Joaquim Araújo referiu beijar as lágrimas dos seus amigos como “nunca ninguém beijará jamais”.

Os seus “actos e factos devem contar-se em voz alta”[4]. Foi justamente com este intuito, e com o propósito de prestar uma singela homenagem ao poeta, que a Câmara Municipal de Lagoa, através da Biblioteca Tomaz Borba Vieira, organizou a exposição “Antero – para além dos sonetos”, patente até 3 de maio no Convento dos Franciscanos. As palavras de boas-vindas a esta exposição couberam a José Couto, devoto de Antero, desde os 13 anos de idade, e que vive o verbo vivo do poeta, filósofo e socialista.

Seria pretensioso que a exposição abraçasse aprofundadamente todas as áreas a que Antero se dedicou. Desta feita, o que se procurou foi dar a conhecer o homem pelas suas palavras, pelas dos seus contemporâneos, pelas suas leituras, pela sua correspondência, pela música que o inspirou para alguns sonetos, pela sua obra. Numa exposição que se deseja não ser estática, antes sentimental e intelectualmente dinâmica, foram criados quatro núcleos temáticos, enriquecidos com painéis informativos, e que cumprem essencialmente duas funções: a emotiva e a didática.

A 11 de setembro de 1891, Antero suicidou-se com dois tiros, mas a sua alma permanece nas nossas gentes. É para prová-lo e também porque a arte é necessária, que o último núcleo designa-se de Antero depois de Antero. Este inicia-se, justamente, com uma placa toponímica, aludindo à primeira homenagem póstuma feita pela cidade em que nasceu. A partir de então, temos o pretexto perfeito, se assim se pode dizer, para percorrer uma espécie de avenida com notas de imprensa póstumas, que compreendem o período entre 1909 e 2015[5], tributos de entidades e obras de arte que surgiram das mãos de “insulanos da ilha de Antero”[6] que merecem ser olhadas com olhos de ver e de sentir. Canto da Maia, Domingos Rebêlo, Raposo França, Tomaz Vieira e Urbano são os autores das obras que se apresentam neste núcleo.

Se a exposição se inicia com um dizer de José Bruno Carreiro, autor de uma das investigações mais minuciosas sobre o poeta, que nos transporta para a ligação de Antero com o mar e, consequentemente, à ilha, finda com a crónica de Emanuel Jorge Botelho, cujo excerto já foi reproduzido neste artigo, ao lado da obra “Banco de Antero”, da autoria de Urbano. Esta forma de colocar um “fim” na exposição, não só nos reporta para o local onde colocou termo à vida, como pretende precisamente fazer-nos pensar no modo como, muitas vezes, o poeta tem sido indevidamente tratado na sua terra.

Lembremo-nos de Antero pela sua obra, quer a poesia quer a prosa, pelo contributo que trouxe à literatura, pelo seu espírito revolucionário e ideias socialistas, e pelo seu caráter. “É impossível não ficar rendido perante a originalidade do seu génio, o fulgor da sua personalidade e encanto pessoal pela grandeza moral que marcou todos os actos da sua vida”, disse-o Ana Martins. É também por isso que Antero de Quental deve ser lembrado e é também aí que deve ser encontrado.

 

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[1] Rebelo de Bettencourt, 1942.
[2] Excerto de uma carta a Augusto Correia Bicudo (In. Ferreira, M., 2002).
[3] Emanuel Jorge Botelho (2012). 30 Crónicas II. Ponta Delgada: Publiçor.
[4] Vasconcelos Abreu, In Memoriam, 1993: 9.
[5] gentilmente cedidas por Teófilo Braga.
[6] Expressão da autoria de Nestor de Sousa.
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Por: Teresa Viveiros

Categorias: Cultura, Opinião

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