Opinião: Estratégias e Novos tempos

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A atração do poder político pelo controle dos órgãos de comunicação social não é nova, assume-se nas entrelinhas das estratégias traçadas e revela-se, muitas vezes, profícua, quer pela fragilidade revelada por jornalistas e outros agentes dos “media”, quer pela necessidade mutuamente encontrada de uma tácita “plataforma de cooperação” para que não se percam influências, regalias ou favores, ou apenas para que se salvaguardem os acessos privilegiados a fontes de informação bem colocadas junto dos decisores.

É uma história que se confunde com a história dos “media”, e que, curiosamente, se revela transversal a sociedades democráticas e ditatoriais, pelo simples facto de que, mesmo nas primeiras, a tendência para o domínio dos fluxos informativos por parte da classe política pode, na sua génese, remeter-nos para princípios que nos fazem lembrar as segundas…

Os níveis de compromisso e comprometimento são, evidentemente, variáveis. E são-no na proporção da influência do órgão de comunicação social, no seu universo de implantação, na permeabilidade dos respetivos jornalistas ou dirigentes. E também o são por condições de proximidade. Em regiões demográfica ou geograficamente mais contidas, a maior facilidade de contacto entre políticos e comunicadores, as teias de maior cumplicidade e dependência, revelam-se devastadoras para os princípios de independência, honestidade e liberdade editorial de que devem gozar os “media”. Porque, mesmo que formalmente sejam mantidas as distâncias de segurança entre informadores oficiais e veiculadores de informação de massas, a rede social de interação é curta, apertada e, muitas vezes, viciadora do jogo profissional e democrático entre as duas faces desta moeda.

Quando se analisa a questão num prisma nacional de influência, dois vetores emergem: a dicotomia público/privado. E, num quadro de serviço público que é sempre apetecível para o estabelecimento de “canais de confiança” entre o poder político e o “quarto poder”, ao ponto de, muitas vezes, este ser levado a transformar-se numa espécie de “quarto do poder”, os níveis de pressão sobem de intensidade enquanto descem ainda mais os fatores de apropriação e domínio.

Com esta realidade se debateram os prestadores de serviço público, em Portugal, nos últimos 40 anos. Mas a definição programática de um novo rumo para a RTP poderá fazer infletir a tendência, desde logo porque permite questionar modelos, redimensionar estratégias e meios para as executar, e atingir resultados que, não sendo quantitativamente competitivos com os operadores privados, são porém mais próximos das verdadeiras incumbências e do registo de conteúdos necessário ao prestador do serviço público em matéria de audiovisual.

Será assim também nos Açores, com a adaptação funcional da televisão e da rádio públicas regionais, mas com um princípio que vem de décadas: perceber que à obrigação formal da prestação do “serviço público” se deve aliar uma muito prosaica mas determinante postura “ao serviço do público”.

Por Rui Almeida

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