Opinião: Palavras para uma ilha

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José Saramago escreveu em tempos um artigo intitulado Palavras para uma cidade que é, segundo o dizer do próprio, uma carta de amor à cidade de Lisboa. Inspirada no seu artigo, a Junho de 2013 escrevi uma carta de amor à ilha que me serviu de berço. Opto por recorrer a excertos que nela constam, minimizando a carga afetiva que a caracteriza, numa mera tentativa, é certo, de homenagear a minha ilha e o meu mar. Ilha e mar: duas palavras que entram na geografia sentimental de todos os que por cá nasceram e dos que fizeram dos Açores, e desta ilha em particular, o seu lar.

O mar.

O mar da minha ilha tem alma.É um mar que, a rodear este pedaço de terra feita de verde, não aprisiona, antes nos instiga à aventura, à descoberta, aos sonhos, à liberdade. É o mar por onde, há mais de meia centena de anos atrás, dois homens, Evaristo Gaspar e Victor, se fizeram à estrada de água em busca de outras terras, levando com eles somente O barco e o sonho.

O mar da minha ilha é o pai de consagrados artistas plásticos.

Urbano um pintor nascido do mar, como designou Nestor Sousa, que com os seus dedos feitos de tinta eternizou os (saudosos) banhos das Alcaçarias, e que aquando da antologia da sua obra a batiza justamente Neste meio de mar. E se, por um lado, o artista faz-nos embarcar numa viagem à autobiografia da Terra, ao Princípio[1] dos princípios, através do registo (com pincéis e carvão) da respiração a brotar das profundezas do mar. Em outras obras, leva-nos a mergulhar numa peregrinação interior; somos instigados a refletir silenciosamente e em interrogarmo-nos no sentido de estarmos neste pedaço de Terra redonda.

O mar da minha ilha não existe em mais lado algum. No entanto, a sua essência pode ser transportada. Tomaz Vieira, com a sua obra intitulada Ilhas Emaladas, conseguiu levar para outras terras a essência do nosso mar, da ilha e das gentes. É um mar que, em dias de calmaria, inspira à quietude; noutros dias à liberdade e ao ir além de. Este “ir além de” que se dá sempre que contemplamos a linha do horizonte, que por estas bandas é feita de água (o que, por si só, diz tanto de nós açorianos). Faço minhas as palavras do artista “crescemos a olhar para o mar”, e este crescimento, além de físico, tem também o significado de maturidade emocional e intelectual. O mar espicaça-nos a crescer, “a não nos contentarmos em ser rio, se podemos ser mar”, como um dia li.

A ilha.

Este pedaço de lava que viu escorrer o seu sangue pela última vez em 1652, é feito de vulcões o que, quiçá, explique o facto de que muitos dos que cá habitam tenham “no coração a ardência das caldeiras”, como nos diz a música Ilhas de Bruma, com letra de Manuel Ferreira.

Esta ilha tem a música das gentes. E gosto destas músicas, das que falam da saudade, das que relatam o quotidiano de outros tempos, dos repentistas e cantadores ao desafio, do cantar tradicional aliado ao folclore. Mas também gosto da melodia que sai das vozes e é tocada e cantada por gerações mais recentes. Da música doce, com o sabor de um amanhecer, tocada por Luís Alberto Bettencourt; e da música madrugadora, deliciosamente rouca, de Zeca Medeiros. Todos estes sons entram em ressonância com as moléculas do meu ser, colam-se e fazem parte das nossas memórias.

A música açoriana carrega em si o som da viola da terra que – em tempos idos – durante o dia servia para adornar os quartos de tantos casais açorianos, e à noite era resgatada para animar os serões, após um dia de trabalhos. Este instrumento, com os seus dois corações, reflete tão bem a nossa alma e a saudade que habita em forma de carne em tantos açorianos, espelhando aquele que fica e o que parte. Esta viola, recuperada agora pelas mãos de Rafael Carvalho que não a entregou ao destino fatídico de ficar a criar pó, tem chegado a novas gerações, aliando ritmos tradicionais aos contemporâneos.

A minha ilha carrega em si tradições e ofícios que, a par do trabalho, eram outrora (também) um pretexto para que as gentes se juntassem. Hoje é ninho de iniciativas que vão decorrendo um pouco por toda a ilha para que saberes-fazeres de antigamente não se percam, tecendo e fiando encontros entre gerações.

A minha ilha foi placenta de escritores e poetas como Antero de Quental, Armando Cortes-Rodrigues, Daniel de Sá, Natália Correia e Emanuel Jorge Botelho. De escultores como Canto da Maia e Raposo de França. Uns partiram, outros regressaram, mas todos ficaram na essência da ilha.

Não foi sempre de tempos de bonança. Os invernos rigorosos, a escassez de alimento, o isolamento, levaram a que muitos embarcassem. Este registo foi perpetuado por Domingos Rebelo no seu quadro Os emigrantes. No entanto, a partida não fazia cortar o cordão umbilical a este pedaço de terra, tal como nos diz Daniel de Sá: “partir é a pior forma de permanecer na ilha”. Não admira, pois, que os açorianos espalhados pelos cantos do Ocidente, preservem tão ou mais a identidade açoriana dos que por cá se encontram. Mais tarde, Tomaz Vieira dá continuidade à história contada pelas tintas de Domingos Rebelo, com a obra Os Regressantes, mostrando que a partida trazia, não raras as vezes, o almejado regresso.

Esta ilha é feita de lagoas, guardiãs das memórias de vulcões, que nos entram na retina sempre que as contemplamos. A este propósito Raul Brandão escreveu “quase tenho medo de falar de uma paisagem que hoje, mais do que nunca me parece irreal”.

Esta ilha, este mar. É comum de quem não tem alma de ilhéu recorrer a Fernando Pessoa e dizer que “primeiro estranha-se, depois entranha-se”. A mim, entranhou-se quando nasci. Não foi este pedaço de terra que escolhi para nascer, mas foi onde escolhi ficar.

É que, para além de tudo isto, aqui eu tenho o som. O mais belo som do mundo: que é o da água salgada a bater no calhau de pedra rolada.

Teresa Viveiros

 

[1] Conjunto de obras que integram a exposição No Princípio (2000) e que têm como referência a erupção do vulcão submarino da Serreta que se desenvolveu entre 1998-2001 (localização: 10 km a oeste da Ilha Terceira).

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