Opinião: “Dominar a sociedade de consumo, insuflando-lhe um suplemento de alma”

Teresa-Viveiros-educação-cultura-cronicas

Chaban-Delmas diz-nos que “importa dominar a sociedade de consumo, insuflando-lhe um suplemento de alma” e de calma, atrevo-me a acrescentar.

Entramos no mês natalício aquele que, mormente pelas celebrações que assinala, deveria instigar-nos a parar, a adoptar uma postura mais reflexiva e humana. Paradoxalmente, o que se assiste nas últimas décadas é o oposto. Numa sociedade de consumo, como é a da contemporaneidade, a quadra natalícia tem vindo a caracterizar-se pelo consumismo.

Há a preocupação com os enfeites e decorações que já têm as suas modas e mudam quase anualmente, as procissões aos estabelecimentos comerciais, os anúncios publicitários destinados a influenciarem os consumidores e que têm como público preferencial as crianças, gerando nestas uma série de quereres associados ao ter. Em terras de Vera Cruz foi realizado um trabalho de investigação, no âmbito da pedagogia do consumo, com vista a aferir de que forma os mass  média desenvolvem no espectador infante a ânsia de possuir determinado produto. Os resultados não são   surpreendentes: há de facto uma mudança de comportamento relacionada com os desejos e solicitações que aumentam nos dias em que assistem à televisão.

Uma considerável fatia da sociedade participa nesta ode ao consumismo. Para além de toda a reflexão em torno dos valores que estão a ser transmitidos, há   também as questões ambientais. Permanecemos     inconscientes face à matéria-prima necessária para   elaboração do produto, modos de fabrico e comercialização. Boa parte são feitos com vista a tornarem-se obsoletos e incute-se uma identidade coletiva associada à cultura do desperdício: “os consumidores estão permanentemente implicados num processo de sacralização e dessacralização dos bens materiais” (Belk & Wallendorf, 1990). As motivações para a aquisição dos produtos são diversas, e algumas bastante válidas, mas frequentemente fechamos os olhos à realidade de que nas últimas décadas foram consumidos cerca de 33% dos    recursos naturais do planeta. Vive-se como se não se soubesse que aqueles são finitos. Sobre este assunto, sugiro a visualização do documentário Home, produzido pelo jornalista e ambientalista francês Yann Arthus-Bertrand, em 2009.

No dia 25 de Dezembro o que se vê a abarrotar nos caixotes do lixo é a materialização deste consumo. No tempo da Maria do Carmo Oliveira e da Mara Arruda, há trinta anos atrás, viam-se crianças a brincar na rua: umas a partilhar os seus brinquedos, outras a exibir os que tinham construído, num verdadeiro exercício de engenho do reaproveitamento dos materiais que a   natureza oferecia. Os carrinhos de rolamento, o pião, os cavalos de pau, conviviam pacificamente com os poucos brinquedos industriais de então. Longe vão os tempos em que a consoada era passada no seio familiar a consumir produtos locais e da época. Não havendo    televisão, partilhavam-se conversas, e o corpo e a mente descansada tinham tempo para usufruir dos   momentos com os seus. O presente, por vezes, era um chocolate no sapato. “Era uma alegria”, como recordaram    ambas.

Hoje a sociedade é outra, é certo. Mas importa   reflectir na perspetiva Eco-humanista que defende que os actuais padrões de consumo não favorecem a    satisfação das necessidades. Importa ter um consumo sustentável, privilegiar a economia local e aproveitar os dias de pausa que usufruímos neste mês para termos tempo: para nós e para os outros. Alimentar o apetite pela vivência de momentos e dar um pouco de silêncio ao mundo. É que, como nos escreveu Saramago, “com uma barulheira destas, como é que alguém poderá   fazer o seu exame de consciência de fim de ano”.

O Pe. Duarte Melo dizia, há um ano atrás, que devíamos sentir o Natal dentro de nós. Sentir. Não   encontro melhor forma para terminar esta crónica.

Teresa Viveiros

Categorias: Opinião

Deixe o seu comentário

Your e-mail address will not be published.
Required fields are marked*