Opinião: Con…tradições

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Um é meu neto, o outro era meu avô. Ele, o neto, apesar da tenra idade já “exibe” um espírito festivo que só tinha dado conta de existir nos idos anos em que o menos jovem era vivo. Para ser sincero, este que aqui “dedilha” fez a ligação entre gerações tão distantes, mas, também, tão perto.

Vem isto a propósito dos tempos que vivemos. É habitual dizer-se que a vida é uma festa. E é, apesar de algumas contrariedades que por vezes nos turvam a alma, temos é que vivê-la com intensidade, no sentido de partilha, amizade, compreensão, disponibilidade e evolução. Não só devemos “acompanhar” o subir de degraus numa vida, que são os anos que vamos deixando para trás, como devemos “agarrar” os que estão a chegar, que se espera ainda sejam muitos. Foi o que me aconteceu no último fim de semana de Outubro. Halloween!

Esta “celebração festiva”, por mais que se queira falar dela, não é, ainda, uma tradição enraizada nos Açores. É sim e tão somente, uma importação das terras da emigração, que também nos oferece estes “presentes”, e que começou há poucos anos a ser vivida. Não fomos só nós que para a diáspora levamos as nossas tradições. As festas ou comemorações vividas no lado de lá do atlântico também cá chegaram, trazidas em malas de cartão ou em lágrimas contidas. Não entro aqui “nessa” do consumismo. Isto são contas de um outro “rosário”.

A alegria das crianças que naquele dia deambularam por ruas e ruelas é suficiente para deixar qualquer um feliz. Se calhar a maioria deles não sabe ao que vai nem porque se veste de forma carnavalesca para receber uns míseros rebuçados, mas vai porque os amigos vão, e porque para eles já é uma “tradição”.

No “nosso” tempo tinha-mos o “ pão por Deus” que, só não vai dar ao mesmo porque, se calhar, não era mais pobre, pelo contrário, tinha era menos alarido e não havia maquilhagens.

Acabado o Halloween e eis que nos chega o São Martinho. Sem ser padroeiro de nenhuma paróquia, que eu conheça, é “padroeiro” de muitos paroquianos, ávidos de “novidades”. E aqui, nesta festa entra o meu avô.

De bruxas, vampiros, esqueletos e temores nunca quis saber. Mas “honrar” na plenitude e devoção o “amigo” Martinho, aí sim. Aí não falhava. E a fé era tanta que o bom do homem nunca renunciou ao seu santo devoto. Foram amigos muito respeitadores um do outro ao longo de uma vida. Isso sim, é uma tradição enraizada. E tanto assim é que, hoje em dia, até já existem irmandades. Que venha o São Martinho, com o seu verão, com a sua alegria e com bons “néctares”, para bem de todos. Idades diferentes, festividades diferentes, tradições diferentes. É o sinal dos tempos, a evolução, a mudança, o rejuvenescimento de uma “gente” que já foi criança, que viveu “coisas” bonitas, mas, se quiser ser parte integrante desta sociedade que segue a vida numa velocidade vertiginosa, tem que comemorar o Halloween e o São Martinho com a mesma “frescura”. E, olhando em frente, se calhar já é tempo de tirar as “figuras” do presépio do presídio a que foram sujeitas durante os últimos meses, para não “embelorarem” !

Jorge Machado

Categorias: Opinião

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